Agro é Ciência e Tecnologia

Inovação em Pauta 09: Agro é Ciência e Tecnologia (23/07/2020)

Entrevistado: Doutor Celso Moretti – Presidente da Embrapa

Agricultura movida a ciência! Viabilizar soluções de pesquisa, desenvolvimento e inovação para garantir a sustentabilidade nacional em benefício da sociedade brasileira. Foi com esse intuito que a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) foi criada em 1973.

A instituição, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, atua na geração de conhecimento e de tecnologias para a produção de alimentos, fibras e fontes de energia.

Quanta história e desenvolvimento científico dos anos 1970 até os dias atuais. Atenta ao aumento da população brasileira, aos avanços tecnológicos e aos desafios de desenvolver inovações para alimentar o Brasil e o mundo, a Embrapa utiliza os aprendizados do passado para alimentar o presente e transformar o futuro.

Em 2 de setembro desse ano, a Agência Nacional divulgou o Índice Global de Inovação (IGI), que coloca o Brasil regredindo 4 posições referente a 2019, quando o país ficou na 66ª colocação no ranking que abrange 131 países. Em 2011, ocupávamos a 47 ª posição.

Em 2020, em relação aos 37 países da América Latina e Caribe, o Brasil aparece na quarta posição atrás do Chile (54º), México (55º) e Costa Rica (56º). No ranking global, os 10 países mais bem colocados do índice são: SuíçaSuéciaEstados UnidosReino UnidoHolandaDinamarcaFinlândiaCingapuraAlemanha e Coreia do Sul.

Nas exportações, ainda no primeiro semestre, o agronegócio foi responsável por mais de 50% das cargas enviadas para fora do país. Todos esses dados são da Consultoria Cogo e estimam que as exportações devem totalizar aproximadamente 106 bilhões de dólares em 2020.

Com as importações em queda, a balança comercial do setor agropecuário fechou o mês de agosto com um superávit de 7,1 bilhões de dólares. A China segue sendo o maior parceiro comercial do Brasil, especialmente graças à exportação de soja para o país oriental.

Por outro lado, temos a alta no preço do arroz dominando as análises de noticiários no segundo semestre, que impactou e surpreendeu as famílias brasileiras. Há um somatório de fatores determinando a subida de preço desse grão nos últimos meses. Além da exportação em alta, os especialistas apontam a redução da colheita na Índia (um dos principais produtores mundiais), a alta do dólar, a redução de áreas plantadas no Brasil nos últimos anos e o aumento da demanda no pós-pandemia, além da iniciativa protetiva de alimentos nacionais, do agro internacional.

Esse cenário concomitantemente promissor e desafiador se revela como um grande estímulo tanto para os produtores quanto para a Embrapa, que não perde de vista o impacto das principais inovações do agronegócio e as possibilidades de ganhos futuros.

Os dados tendem a mudar, para melhor. Além da safra recorde prevista para o ano de pandemia, em julho de 2020, um acordo de geral de cooperação e um acordo de cooperação técnica para atração de investimentos foram assinados pelo diretor da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) e pelo diretor da Embrapa, doutor Celso Moretti, o entrevistado da nona edição do Inovação em Pauta.

A íntegra dessa conversa repleta de boas notícias para a pesquisa e o desenvolvimento no contexto do agronegócio brasileiro você confere na entrevista ao vivo realizada em nosso canal no YouTube.

Acompanhe, a seguir, alguns destaques da entrevista.

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A EXPERIÊNCIA DA EMBRAPA COM UM NOVO PROJETO NACIONAL DE INOVAÇÃO – Vencendo desafios no investimento em pesquisa e desenvolvimento.

O Brasil ainda investe muito pouco em pesquisa e desenvolvimento; somente algo em torno de 1,2% do PIB brasileiro é destinado a esse universo. Apesar de investir pouco em pesquisa, o Brasil está na 13ª posição no ranking mundial de geração de conhecimento. Porém, quando se trata da inovação, ocupamos a posição 62 no Índice Global de Inovação (IGI – 2020).

 “Ainda estamos pecando em transformar conhecimento em inovação”, segundo Moretti. Como instituição, a Embrapa se vê como responsável por promover soluções sustentáveis junto ao agronegócio brasileiro. “Nossos pesquisadores devem resolver problemas e isso vai muito além de premiações por publicações de artigos acadêmicos”, salienta Moretti.

As boas práticas do passado, não nos levam adiante. Desde fevereiro de 2018, a Embrapa vem mudando o modelo de pesquisa praticado, saindo do foco produtivista (de produção de tecnologias para o agro) e canalizando os esforços dos pesquisadores para a inovação em agropecuária.

O resultado passa a ser não apenas um artigo publicado em uma revista, mas sim o ativo inserido em uma determinada cadeia produtiva. Para isso, adaptamos um modelo de níveis de maturidade tecnológica utilizado pela NASA, usando o mesmo recurso na gestão de ativos, de modo que a Embrapa tem hoje uma linguagem compreendida internacionalmente nesse contexto.

A agropecuária brasileira vem se consolidando de forma mais competitiva no cenário mundial, com inovações que têm impactado positivamente as atividades e apontando caminhos futuros. Prova disso é o desempenho das exportações do agronegócio em 2020. Mesmo no cenário incerto da pandemia, as operações indicam recordes neste ano, que já apresentou o melhor junho da história para o setor, com vendas externas ultrapassando a casa dos 10 bilhões de dólares.

AS PRINCIPAIS INOVAÇÕES AGRO QUE IMPACTAM NO BRASIL – O que vem pela frente no agronegócio brasileiro.

Para o doutor Celso, a quantidade de inovações e soluções geradas pela Embrapa é impressionante. Desde uma nova variedade de açaí até um bio insumo produzido a partir de bactérias que viabilizam o fósforo do solo, ajudando a reduzir a dependência do Brasil da importação de adubos fosfatados. A Embrapa vem entregando valor e solucionando problemas.

Destaque para a área da agricultura digital e agricultura de precisão, que demandará muitos avanços nos próximos anos. Ciente da necessidade e dos desafios da transformação digital, a Embrapa reconhece a importância do avanço dessa realidade no campo.

Um ponto importante a se considerar é a questão da conectividade. Segundo estudos recentes do IBGE, 72% das propriedades rurais carece de conectividade. Esse é um limitador que precisa ser vencido.

A bioeconomia, por sua vez, surge como uma oportunidade para que o Brasil alcance uma posição de liderança a nível mundial. Pesquisadores da Embrapa estão atuando em projetos que mapeiam o uso de micro-organismos para o controle de pragas e outras doenças e para a viabilização de produtos alimentícios e na indústria farmacêutica.

Já a edição genômica avançará com inovações que facilitam a edição do DNA das plantas, atuando para produzir espécies que resistam às condições climáticas de escassez de água ou às doenças, por exemplo.

Por fim, vislumbrando o futuro da agropecuária no Brasil, doutor Celso Moretti destacou a questão da integração entre agricultura, pecuária e floresta. Esse processo recente tem possibilitado entregar para o mercado, de forma única no mundo, por exemplo, a carne carbono neutro – o metano produzido pelo gado é neutralizado pelas árvores que existem no sistema.

Todas essas conquistas apontam para os desafios a serem superados para que o Brasil se mantenha da vanguarda da inovação agropecuária mundial, sobretudo no cenário pós-pandemia.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Brasil será o maior produtor mundial de alimentos ainda em 2020. Especialistas do mercado e membros dos governos concordam que, nesse cenário, o agronegócio assumirá um papel protagonista na segurança alimentar brasileira e de outras nações.

Um estudo recente divulgado pela Embrapa aponta que a produção agrícola de commodities foi relativamente pouco impactada pela pandemia, especialmente na produção de grãos e carnes. Entretanto, já não se pode dizer o mesmo de itens como o açúcar ou da agricultura familiar.

Com o isolamento social e a interrupção no funcionamento de restaurantes, hotéis e feiras livres, os pequenos e médios produtores de hortaliças, pescados, frutas, leite, ovos e outros itens enfrentaram (e ainda enfrentam) muitas dificuldades para escoar a produção.

Um dos caminhos possíveis para vencer os desafios impostos pela pandemia ao agronegócio foi apontado pela Confederação da Agricultura e Pecuária no Brasil (CNA), que articulou um comitê de crise junto aos Ministérios da Agricultura e da Infraestrutura. Uma das ações prevê novas regras para produção e distribuição de alimentos, com foco em programas públicos de aquisição direta com os produtores rurais.

Outro apontamento feito pelos especialistas dá conta de que o investimento em pesquisa e inovação ganha ainda mais importância no cenário pós-pandemia, reforçando a vocação do agronegócio como motor de crescimento econômico e do Brasil como líder mundial no setor.

OS MOTORES DO AGRO NACIONAL – Investimento em pesquisa e a vocação brasileira para a liderança em produtividade no pós-pandemia.

Para Celso Moretti, é preciso investir mais nas instituições que trabalham com pesquisa, desenvolvimento e inovação na agropecuária. A Embrapa é uma prova de que esse investimento vale a pena.

Segundo o monitoramento da instituição, publicado anualmente no seu Balanço Social, para cada R$1,00 colocado pela sociedade na Embrapa, foram devolvidos R$12,19 – em dados referentes ao ano de 2019.

Não é por acaso que o Brasil é reconhecido como celeiro do mundo. Temos potencial para ocupar posições de destaque não apenas no contexto de commodities, mas entregando produtos de maior valor agregado.

Para que essa vocação seja exercida na íntegra, a inovação e o desenvolvimento de novas tecnologias, a partir do investimento na ciência em agropecuária, são fatores de importância crucial na conquista da liderança em produtividade.

A batalha da produtividade vem sendo vencida pelo Brasil com eficiência. Usando apenas 8% do nosso território produzimos uma safra recorde no intervalo 2019-2020, colhendo mais de 251 milhões de toneladas de grãos. Isso é suficiente para alimentar 1 bilhão de pessoas – o que equivale a cinco vezes a população brasileira.

Assim, segundo o doutor Moretti, o desafio da produtividade já foi vencido pelo Brasil, com ajuda da inovação e do desenvolvimento tecnológico. Mas, ainda estamos perdendo a batalha da comunicação. Precisamos mostrar para o mundo que a produção de alimentos brasileira é competitiva e é sustentável.

Ele nos recorda que o nosso país tem ⅔ do seu território preservado na forma de vegetação nativa e em nenhum outro lugar do mundo o produtor é obrigado a preservar uma parte da sua propriedade em benefício do meio ambiente como um todo.

Porém, isso precisa ser divulgado de forma mais consistente para o mundo, dando visibilidade às práticas sustentáveis. Esse desafio não pode ser perdido de vista, assim como a necessidade de fazer as inovações chegarem aos pequenos produtores.

Segundo Celso Moretti, a esmagadora maioria dos cerca de 5,2 milhões de propriedades rurais brasileiras é composta de pequenos produtores. Sendo uma empresa de pesquisa e soluções, a Embrapa tem o compromisso de fazer a inovação chegar a todos eles, de forma adaptável e utilizável.

Trata-se de um desafio muito grande para a instituição, que conta com apoio de órgãos de assistência técnica de extensão rural e das secretarias de agricultura dos estados.

Esse link entre a pesquisa e a produção é uma busca constante da Embrapa, que é uma empresa pública com 47 anos de história. Com seus 43 centros de pesquisa espalhados pelo território brasileiro, a instituição conta com quase 10 mil pesquisadores, além de outros tantos colaboradores, para produzir soluções que tangenciam a agropecuária brasileira de A a Z.

A Embrapa acredita que inovação para todos pressupõe parcerias com as universidades, trazendo o setor privado para mais perto dessa cadeia colaborativa. É importante capturar mais valor em relação aos ativos que são entregues para o mercado e isso não pode ser perdido de vista no diálogo com as universidades, reduzindo a dependência dos recursos públicos.

Nesse contexto, o Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação ampara e incentiva o diálogo entre empresas, universidades e instituições públicas. Ele favorece a criação de um ambiente mais dinâmico de inovação no Brasil, estabelecendo novas regras para que negócios, pesquisadores e investidores aproveitem as oportunidades dos ecossistemas de ciência.

Com os pés ainda no cenário produzido pela pandemia e olhando para o futuro da agropecuária no país, doutor Celso Moretti finalizou sua entrevista com uma provocação: quem mora na cidade não percebe ainda a importância do agro na sua vida.

A Embrapa está no dia a dia de todos nós, desde o café até o jantar. Seguiremos vencendo as dificuldades trazidas pela pandemia, mantendo a cadeia da produção alimentar ativa, segura e eficiente.

O agro, que já tinha grande participação no PIB brasileiro, será ainda mais importante, chegando provavelmente a cerca de 25% de participação no próximo ano. A economia brasileira vai precisar do agro e o agro precisará da Embrapa e da pesquisa.

Redação: Francis Aquino Fernandes e Thaís Helena, para o canal Inovação em Pauta. Entrevista realizada no YouTube em 23/07/2020.

SOBRE CELSO MORETTI – De pesquisador a Gestor

Para Celso Moretti essa jornada se deu a partir de um olhar empreendedor sobre a própria carreira, que o levou a atuar em vários níveis da cadeia de produção da agricultura.

Em 1994, eu iniciei como pesquisador da Embrapa e logo fui convidado para uma experiência como supervisor na unidade onde eu iniciei minha carreira. Eu percebi que eu tinha jeito para gerenciar equipes, encarar novos desafios, estabelecer metas e métricas e fazer o acompanhamento do trabalho. Mas por volta do ano 2000 é que eu comecei a me interessar mesmo pela área da gestão, embora tivesse estudado para ser um pesquisador.

Doutor Moretti nos lembra que nem sempre um bom pesquisador será um bom gestor. Para atuar bem à frente dos processos gerenciais a partir da experiência na pesquisa é fundamental buscar capacitação, investir na formação para desenvolver conhecimentos e aptidões fundamentais para um gestor de excelência.

Seguindo esse caminho, ele pode contribuir com o crescimento da Embrapa e da agricultura no Brasil. A inovação é parte fundamental desse processo.

SOBRE A EMBRAPA

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) define-se como uma instituição de inovação tecnológica focada na geração de conhecimento e tecnologia para a agropecuária brasileira. Ao longo de quase 50 anos, assumiu o compromisso de desenvolver um modelo de agronegócio genuinamente brasileiro, vencendo as limitações para a produção de alimentos, fibras e energia no Brasil. Esse caminho permitiu que a agropecuária brasileira se tornasse uma das mais eficientes e sustentáveis do planeta, garantindo alimento de qualidade na mesa dos brasileiros e exportando commodities e produtos de alto valor agregado para os quatro cantos do mundo.

Conheça: https://www.embrapa.br/

SOBRE O CANAL INOVAÇÃO EM PAUTA

Como o objetivo de desmistificar o conceito de inovação, nasceu o programa Inovação em Pauta, um canal de conteúdo no Youtube, Facebook, Instagram e LinkedIn que promete informar, inspirar e principalmente apresentar de forma clara e simples como o ecossistema da inovação se movimenta em Minas Gerais e no Brasil.

O programa representa uma imensa oportunidade de se manter atualizado sobre tudo o que é feito e por quem são feitas as inovações mais relevantes no mundo de hoje, o que está acontecendo no Brasil e no mundo, quais as principais tendências e como não ficar de fora dessa transformação digital.

São três idealizadoras, Alessandra Alkmim e Janayna Bhering, especialistas em tecnologia, inovação e empreendedorismo, com forte atuação no mercado. Francis Aquino é jornalista empresarial e atua fortemente na identificação de oportunidades, divulgação e promoção do capital intelectual brasileiro.

Programação: todas as quintas-feiras, às 19 horas, ao vivo no Youtube.

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FONTES DO E-BOOK:

Relatório IGI Brasil

https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2020-09/brasil-fica-na-62a-posicao-o-indice-global-de-inovacao

“Exportações do agronegócio devem bater recorde em 2020”

https://www.canalrural.com.br/noticias/agricultura/exportacoes-agronegocio-recorde-2020/

“Apetite voraz da China faz explodir exportações do agro e setor gera superávit de US$7,1 bilhões em agosto”

https://www.comexdobrasil.com/apetite-voraz-da-china-faz-explodir-exportacoes-do-agro-e-setor-gera-superavit-de-us-71-bilhoes-em-agosto/

“Por que o arroz está tão caro e quando o preço deve cair”

https://www.correiobraziliense.com.br/economia/2020/09/4874127-por-que-o-arroz-esta-tao-caro-e-quando-o-preco-deve-cair–especialistas-respondem.html

“O impacto do coronavírus no agronegócio”

https://www.dinheirorural.com.br/o-impacto-do-coronavirus-no-agronegocio/

“Embrapa divulga estudo sobre tendências e novos desafios do agro com a Covid-19”

https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/51932081/embrapa-divulga-estudo-sobre-tendencias-e-novos-desafios-do-agro-com-a-covid-19

“O novo marco legal de Ciência, Tecnologia e Inovação”

http://www.fundep.ufmg.br/os-marcos-no-ponto-de-vista-juridico/

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