Como visão de futuro pode prevenir o caos nas cidades e nas organizações

Por: Mauro Carrusca*, membro Conselho de Inovação

As chuvas de janeiro devastaram várias cidades mineiras. Em Belo Horizonte, foi um volume nunca visto em 110 anos. Ruas e avenidas viraram rios com correntezas fortíssimas, fazendo com que encostas, muros de concreto e asfaltos fossem arrancados, casas nas comunidades (construídas em locais de risco) desmoronassem e veículos e objetos de vários tamanhos e portes fossem arrastados. BH se transformou instantaneamente em uma grande maquete, com estruturas de isopor ruindo e sendo levadas em minutos pela força da água. Parecia uma cidade de brinquedo.

O saldo de destruição foi arrasador. Só na região metropolitana de BH 13 pessoas morreram. Mas um balanço no estado de Minas Gerais acusou 54 vítimas fatais, 45 mil desabrigados e um prejuízo de centenas de milhões de reais.

Em poucas palavras, poderíamos resumir essas catástrofes como resposta da natureza à ocupação e manuseio de forma irresponsável do meio ambiente. Não só em BH, mas no mundo, impermeabilizamos as cidades, cobrimos rios para dar lugar a mais ruas e avenidas para tráfego de veículos (que transportam, na maioria das vezes, apenas uma pessoa), ceifamos florestas em prol de crescimento e urbanização. Catástrofes como essas podem não ser previsíveis, mas podem ser minimizadas. Como? Com engenharia, planejamento e visão de futuro. 

Não temos dúvida de que temos engenharias e tecnologias, as mais diversas, para desenhar projetos e ações que podem minimizar perdas, senão evitá-las. São poucos os governos que incluem em seu time profissionais com competências em urbanismo e meio ambiente, como já acontece em grandes cidades mundo afora. Infelizmente, as cidades foram (e ainda são) desenhadas para vidas individuais em detrimento do coletivo. Aliás, estamos vivendo, pela primeira vez na história, a coexistência de 4 gerações. O desafio de equacionar essa questão vem levando governos de cidades como Nova York e Londres a repensarem um novo tipo de habitação para a convivência com menos atritos geracionais. Isso é visão de futuro. 

E o que têm em comum essa recente catástrofe provocada pelas chuvas em Minas e a gestão organizacional? Como nos ensinou sabiamente o poeta português, Fernando Pessoa, precisamos olhar além da nossa aldeia.

Desde o fim do século XX, o avanço tecnológico nos propiciou o início do processo de migração de um mundo analógico para um mundo digital.  As mudanças sempre foram parte da vida do ser humano, mas agora, nesse novo contexto digital, elas acontecem em uma velocidade alarmante, chocando-se contra leis e regulamentações governamentais, modelos de negócios e estruturas sociais e, por que não dizer, também com o nosso modelo mental linear de perceber, agir e tomar decisões. E é importante entendermos que estamos apenas no início, num ponto de inflexão de uma era analógica para uma era movida a dados. O mundo não será mais o mesmo em curtíssimo prazo.  

As organizações contemporâneas, incluindo empresas e governos, sempre foram movidas por jurássicos planejamentos estratégicos, que procuravam e ainda procuram interpretar dados passados e cenários de curto, médio e longo prazos para prever ações para seu desenvolvimento e crescimento. O problema é que o futuro está chegando rápido demais e dando uma nova configuração a tudo. Por isso, as organizações vêm enfrentando grandes problemas. Futuro de 5 anos é muito distante para um contexto dinâmico e extremamente instável como o que vivemos. Mudanças importantes (e em alguns casos disruptivas) acontecem em meses, senão em dias!

Entre outras atribuições, os conselhos organizacionais são focados no cumprimento desse planejamento estratégico, visando o direcionamento estratégico para proteção do patrimônio e maximização do retorno sobre investimentos, fazendo-se cumprir normas e diretrizes legais e nunca questioná-las. Isso já não é mais suficiente.

No contexto atual, também é necessário ter alguém no conselho para pontuar o futuro. Para onde o segmento de negócio está caminhando? Qual o impacto das novas tecnologias no meio ambiente? O que o cliente da era digital espera de nós?  E o cliente do futuro? E a sociedade que tem o poder nas pontas dos dedos, como ouvi-la? Que tecnologias podem, de alguma forma, influenciar ou mesmo nos forçar a um novo reposicionamento de mercado?

Catástrofes ambientais para o cidadão comum implicam na falência da gestão pública, enquanto a derrocada de uma organização implica em perda de empregos, atraso no desenvolvimento local (ou regional), menor arrecadação, com consequências ruinosas para toda a sociedade e prejuízos para seus investidores.

O que tem em comum essas duas situações? Tanto para governos quanto para organizações, falta um componente essencial para a perenidade: visão de futuro.

 

*é estrategista de inovação há mais de 30 anos, CEO e founder da KER Innovation.  VP de AgTech da SUCESU Minas. Membro consultivo em conselhos ajudando as organizações em visão de futuro. Escritor e keynote speaker em eventos nacionais e internacionais. Coautor do livro “Pinceladas de Inovação”.  Engenheiro eletrônico, especialista em Inovação e Empreendedorismo pela Babson College nos Estados Unidos. MBA em Inovação e Administração de Projetos e pós-graduado em ciência da computação. Foi executivo e consultor da IBM Brasil e IBM Estados Unidos no Silicon Valley. 

 

Nota: Texto publicado no Jornal Diário do Comércio do dia 05 de fevereiro 2020.

 

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