Conselho Empresarial de Cultura debate a retomada do setor durante a pandemia

Mais de um ano e meio de pandemia da Covid-19 no Brasil e o setor de cultura ainda enfrenta um grande problema: como retomar as atividades com segurança? O Conselho Empresarial de Cultura da ACMinas, presidido por Jorge Carlos Borges de Souza, discutiu o tema em um encontro virtual na ACMinas na quinta-feira (19/8).

Os trabalhos foram abertos pelo presidente do Conselho Empresarial de Cultura, Jorge Carlos Borges de Souza, que passou a palavra para o presidente da Empresa de Turismo de Belo Horizonte (Belotur), Mauro Werkema. O jornalista, que acumula uma carreira bastante sólida na cultura, com cargos públicos e tendo estado à frente da Fundação Clóvis Salgado por três vezes e sendo também diretor do Instituto do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional (Iphan), levantou uma série de perguntas, ainda sem respostas, como: o que mudará na produção e exibição cultural? Qual modelo voltará após a pandemia? Teremos um retorno cuidadoso ainda neste ano? Teremos um formato híbrido? Quais serão as limitações que vão se impor no setor?

Werkema conceituou a cultura como “tudo o que eleva o ser humano” e ainda afirmou que a cultura e a arte ajudam na qualidade de vida e no aperfeiçoamento do homem.

Diante desse cenário, o Jorge Carlos Borges de Souza passou a palavra a cinco convidados que defenderam o setor, não sem demonstrar as preocupações inerentes com a segurança biológica que a pandemia impõe.

 

Antônio Grassi

O primeiro a falar foi o diretor do Instituto Inhotim, Antônio Grassi, que destacou a importância do centro, para além da cultura, na economia de Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. O centro chegou a reabrir no fim do ano passado, mas, mesmo com a adoção de todos os protocolos, passou por um novo fechamento imposto pelas autoridades. De acordo com o diretor, foram feitas adaptações para o consumo digital do acervo e dos projetos do Inhotim e, mesmo tendo sido um caminho de sucesso, ainda é incipiente. 

Segundo Grassi, a experiência do Inhotim revela que nada substitui o contato presencial com o meio ambiente e com a arte. E o desafio é como fazer. “Nesta última reabertura vimos que as pessoas estão carentes de meio ambiente, arte contemporânea. E é quase como ter uma outra vacina, para a alma das pessoas. E isso tem provocado uma demanda muito grande. Nós temos que saber como retomar com segurança”, disse.

 

José Renato de Carvalho

Representando o Teatro em Movimento, José Renato de Carvalho falou sobre as adaptações da plataforma para produções digitais. E essas adaptações passam até por mudanças de roteiro. O meio digital exige, por exemplo, textos mais curtos, como web séries e pequenas produções. “Junto com a inovação digital, no ‘novo normal’ vamos ter que deixar de ter filas, vamos ter que ter automação dos processos para evitar aglomerações”, disse o produtor cultural.

Carvalho analisou as “lives” como apresentações culturais, mas ressaltou que este modelo apresenta bons resultados quando há um volume de acessos para valer o cachê dos artistas e ser relevante para patrocinadores. E a volta do “normal” vai precisar discutir a experiência do cliente e o modelo de negócios.

 

Solanda Steckelberg

 

A produtora cultural e sócia da Vivas, Solanda Steckelberg, demonstrou preocupação com a retomada econômica da cultura. E como manter um público novo, que foi conquistado digitalmente. A empresária disse que, mesmo diante das dificuldades impostas pelo isolamento social, a Vivas manteve número positivos, com crescimento econômico neste período. Mas esse bom resultado está associado à manutenção de patrocinadores e de políticas públicas, que permitiram um planejamento mais acertado.

“Agora é daqui pra frente. A pergunta é se a gente vai conseguir ter uma visão clara das políticas públicas para frente. Estou muito otimista, mas ainda está turvo. E como sair do plano emergencial de assistência social à população, como muitos estados adotaram, e eles estão certos. Como continuar a existir num mundo digital, mas também nos territórios que já ocupávamos”, analisou Solanda.

 

Tatyana Rubim

A diretora e curadora da Rubim Produções, Tatyana Rubim, destacou a mudança do Teatro em Movimento para as plataformas digitais como um case de sucesso. A rapidez em tomar decisões e adaptar o conteúdo e a conversa com o público foram determinantes para o sucesso do projeto, gerenciado por José Renato de Carvalho. E acredita que políticas públicas de educação e de reforço das medidas preventivas contra a Covid-19 são fundamentais para que o setor cultura volte com segurança;

“Tem um aprendizado do público que está inseguro e que precisa ser estimulado. E temos que ter um olhar muito humano. A valorização e consumo inteligente são um legado. Então, o setor tem que se estruturar tecnicamente”, disse Tatyana. “Precisamos de uma estruturação de políticas públicas com foco no social e no econômico. O setor tem muitos produtores pequenos e com pouco fôlego. Além disso, os vínculos trabalhistas foram alterados. Temos que sair da nossa zona de conforto e pensar este mundo de uma forma que os mundos físico e digital convivam com menos barreira e de forma mais humana ”, acrescentou.

 

Wagner Tameirão

O gerente do Memorial Minas Gerais Vale, Wagner Tameirão, falou sobre a dificuldade que a cultura enfrenta em um país onde faltam políticas públicas bem claras. Além disso, a pandemia evidenciou um questionamento: “para quem fazíamos a cultura antes? Quando a cultura foi a primeira a parar e uma das últimas a voltar, fica a pergunta. Quem sentiu a falta da cultura? Ela [a cultura] contribui para a saúde mental, mas quem era esse público?”.

E as adaptações das produções para o meio digital levantou um outro problema, que é o acesso universal à internet. “É um retrato do Brasil que não é digital”. Apesar das dificuldades, o gestor disse que o momento permitiu uma diversificação dos produtores culturais. “O digital permite aumentar as convocatórias, contemplando artistas de pequenas cidades, amplifica e dá oportunidade enorme ao interior de Minas Gerais, que é mais do que justa e isso fica, assim como modelo híbrido. A pandemia tirou a poeira do velho modelo, e agora podemos rever esse modelo e fazer um melhor”, encerrou.

 

Debates

Após as colocações dos cinco convidados, os participantes debateram pontos levantados nos questionamentos. O presidente do Conselho Empresarial de Cultura, Jorge Carlos Borges de Souza afirmou que é papel da ACMinas propor às autoridades públicas soluções para auxiliar o setor. 

A diretora emérita da ACminas, Maria Elvira de Sales Ferreira, falou sobre sua experiência política como ex-deputada estadual e federal. Segundo ela, os parlamentares enfrentam também grandes dificuldades na aprovação de projetos, que às vezes se arrastam por um período muito longo, dentro dos caminhos burocráticos. Ela reforçou, no entanto, o papel da ACMinas como uma entidade com força para negociar com os governos o que for necessário para auxiliar o setor cultural.

O presidente do Conselho Empresarial de Turismo, Octávio Elísio Alves de Brito, sugeriu que seja feita uma nova reunião com representantes dos dois conselhos para que a discussão avance.

Por fim, Jorge Carlos Borges de Souza afirmou que a ACMinas está em contato com a Secretaria de Cultura do estado para ajudar o setor, o pequeno empresário e o produtor cultural.

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