Diversidade e Inclusão na Prática Social

Entrevista: Leonardo Gontijo – Diretor presidente do Instituto Mano Down

Inovação em Pauta 36 – veiculado em 13/05/21

Mesmo em 2021, a síndrome de Down ainda é motivo para preconceito. Infelizmente, ainda há uma parcela grande de pessoas que desconhecem ou ignoram o fato de que a síndrome de Down não é uma doença, apenas uma condição genética diferente. Entre algumas das características, os portadores dessa síndrome apresentam um sensível atraso para o desenvolvimento das coordenações motora e mental. Mas isso, felizmente, não significa que não possam crescer, não possam aprender, que não possam participar da vida em sociedade.

Pessoas com síndrome de Down aprendem e se desenvolvem ao tempo deles, e a sociedade tem que estar preparada para lidar com isso, criando condições, oportunidades e direitos. No livro “síndrome de Down: Uma introdução para pais e cuidadores˜, um dos principais especialistas do mundo no assunto, o psicólogo e professor britânico Cliff Cunningham, apresenta um estudo que revela números muito animadores. Oitenta por cento das crianças com a síndrome conseguiram ser integradas com facilidade em pré-escolas.

Um emprego é o passe para a vida adulta. E quando falamos de pessoas com deficiência intelectual, esse passe é ainda mais importante. É uma forma de ter um projeto de vida estruturado, a possibilidade de conhecer pessoas novas e aprofundar relacionamentos, além da chance de vivenciar desafios, o que muitas vezes são suas primeiras oportunidades.

Nesse sentido, muitas vezes escutamos a seguinte pergunta: pessoas com Síndrome de Down podem trabalhar? Passível seu desenvolvimento em sociedade, a pessoa com Síndrome de Down pode trabalhar sim. Mais que isso, as próprias organizações caminham, mesmo que a curtos passos, rumo a uma maior abertura para a inclusão de pessoas com essa característica.

O acesso ao mercado de trabalho é desafiador para todos, mas principalmente com pessoas com deficiência. Hoje muito se fala sobre inclusão e diversidade nas organizações. E a lei prevê que as pessoas com deficiências tenham o direito ao trabalho com condições favoráveis e com igualdade às demais pessoas. Mas sabemos que ainda precisamos de mais incentivos e, principalmente, de menos preconceito.

Contudo, infelizmente, nem sempre está tão claro o quanto a diversidade é importante para as organizações. Não há dúvidas de que há um longo caminho a ser percorrido, mas o primeiro passo está nas mãos de cada pessoa. Você pode compartilhar esse artigo. Só de compartilhar, já estará ajudando. Outra possibilidade é levar esse tema para a sua empresa.

A imagem mostra a tela do Youtube onde aparecem Alessandra Alkmim, Francis Aquino e Leonardo Gontijo.

Vale até mesmo levar esse assunto para sua roda de amigos. A diversidade e a inclusão precisam do seu apoio. A inclusão da pessoa com síndrome de Down na sociedade é uma causa que deve ser defendida por todos nós.

A seguir, os principais pontos da entrevista com Leonardo Gontijo, diretor presidente do Instituto Mano Down. Confira a íntegra no nosso canal no Youtube.

CENÁRIO DA INCLUSÃO NO PAÍS E OS IMPACTOS DA FALTA DE DADOS, EM ESPECIAL SOBRE AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA.

De acordo com o último censo brasileiro, realizado em 2010 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 24% da população possui algum tipo de deficiência. No entanto, segundo Leonardo, existem teses de doutorado que questionam esse dado. Segundo essas teses, temos 6 ou 7% de pessoas com deficiência no Brasil. A pergunta usada no levantamento de 2010 teria sido mal formulada – se a pessoa tinha alguma dificuldade, entrou como deficiência.

“A gente está lutando desde 2010 para ter censos municipais, para termos dados estatísticos, porque política pública precisa disso. Um exemplo é a gente chegar no hospital e falar: ‘mãe, você não está sozinha. Belo Horizonte tem 5.800 pessoas com Down’”.

O Instituto Mano Down realizou uma pesquisa sobre pessoas com deficiência, na cidade de Belo Horizonte, e entregou no dia 3 de dezembro do ano passado (Dia Internacional da Pessoa com Deficiência). O resultado está disponível no site do instituto. Na capital mineira, temos hoje 4,7% da população com algum tipo de deficiência, sendo 5.800 pessoas com síndrome de Down.

“Informação é para política pública. As pessoas com Down são invisíveis. Muitas vezes as pessoas com deficiência não têm acesso a algo porque não são consumidores pra quem acha que a diversidade não é importante”.

CAMINHOS E POLÍTICAS PÚBLICAS POSSÍVEIS A PARTIR DO LEVANTAMENTO DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA.

Leonardo abordou a importância de ter os dados para gerar políticas públicas, citando como exemplo a lei que considerava incapazes as pessoas com Down. Leo comparou a mudança nesta lei a outras que aconteceram ao longo da nossa história, como, por exemplo, a que proibia mulheres de votar.

“É muito importante termos a informação para podermos realizar ações concretas. De acordo com a nossa pesquisa, em Belo Horizonte há 2,5 milhões de habitantes e 25 mil pessoas com deficiência intelectual. Desses, apenas 80 geram renda. Então, nós criamos o primeiro hub de empreendedorismo de pessoas com deficiência e incubamos eles. O dado te leva à ação. O Mano Down quer trocar a palavra exclusão por oportunidade”.

O objetivo do Instituto Mano Down com a pesquisa, reforça Leonardo, é fornecer dados para a sociedade agir, para tirar da invisibilidade as 5.800 pessoas com Down. Como exemplo de necessidade da informação para realizar uma política pública, Leonardo abordou a questão da vacinação contra a COVID-19.

“Quantas vacinas são necessárias para as pessoas com deficiência? Precisamos saber quem são as pessoas com deficiência para suprir esta necessidade. Há um estudo que diz que as pessoas com deficiência têm dez vezes mais risco de contraírem a doença, então vamos priorizar. É assim que se usa o dado”.

MEDIDAS ESSENCIAIS PARA UM AMBIENTE MAIS INCLUSIVO. Os caminhos possíveis para as empresas interessadas em trabalhar a diversidade e a inclusão.

“Pertencimento”, afirma Leonardo. Segundo ele, não é preciso ir ao Vale do Silício quando você abre espaço para a diversidade e a inclusão. “É preciso abrir espaço para as pessoas serem elas mesmas. Se a pessoa pode ser ela mesma, ela produz mais. E, se ela produz mais, ela dá mais resultado, está mais feliz. Pode ser também por ‘coitadismo’, pela lei de cotas, mas quem entende o que é inovação sabe que precisa abrir espaço para todos”.

Leo comentou sobre as múltiplas inteligências humanas e como exemplo citou seu irmão Dudu. De acordo com ele, oito professores falaram que ele jamais iria tocar um instrumento musical porque ele tinha síndrome de Down. Até que um professor percebeu que o Dudu guardava números. Ele acabou aprendendo 10 instrumentos por matemática.

“A música é matemática e eu sou analfabeto musical, apesar de ser engenheiro e saber muito de matemática. A gente tem mais de uma inteligência. A natureza é bonita porque ela é diversa. A humanidade é bonita porque ela é antropodiversa. É um somatório. Você traz mais pertencimento, mais produtividade, mais criatividade, se conecta mais com o seu cliente”.

Segundo Leonardo, seu irmão o ensina muito, mas ele não teoriza, não sabe o que é a McKinsey, por exemplo. O Dudu pratica, não hierarquiza pessoas. Ele foi conhecer o Roberto Carlos e falou: “e aí, Robertão?”. “Ele vê a humanidade das pessoas. E é isso que eu pretendo ser, por isso eu digo que aprendo com eles. Eles não têm teorias, mas fazem, cooperam mais, vibram com a vitória do outro. Eu, que cresci num mundo altamente competitivo, estou me desconstruindo”.

TRABALHO COM PROPÓSITO, TRANSFORMAÇÃO. Descoberta da razão de viver.

Trabalhar com propósito tem sido um tema muito recorrente. As pessoas têm falado muito da busca de propósito, do essencialismo, e a pandemia acelerou e potencializou isso. As pessoas estão muito balançadas, estão querendo encontrar esse sentido essa razão de viver.

Leonardo dividiu com o Inovação em Pauta como ocorreu a sua transformação, lembrando que o fato de ser um homem branco, hétero, de classe média lhe abriu portas, ou seja, ele foi privilegiado. Para ele, não há problema em ter privilégios, o problema é não reconhecê-los e não pensar no que fazer com eles. Ele reforça que 22 milhões de brasileiros não têm a opção de pensar em ter propósito.

Ele conta que tinha o sonho de ter um irmão – era o caçula e vivia apanhado dos mais velhos. Durante seis anos, pediu para ter um irmão, mas os pais não queriam mais filhos. Então, quando ele não pensava mais no assunto, o Dudu nasceu, no dia 19/9/90, com síndrome de Down.

“Para nós, foi muito ruim naquela época. A expectativa de vida das pessoas com Down era 30 anos, hoje é 60. O médico falou que ele não ia andar, não ia falar e ia morrer aos 4 anos. O que não aconteceu. Um dia o Dudu me olhou e falou: ‘acredita em mim’. Então, a primeira reflexão que eu convido a todos a fazer é: qual a foi a última vez que você olhou nos olhos de alguém e falou ‘estou com você independente de’?.

Leonardo explica que o irmão o despertou para uma série de coisas, como por exemplo mostrar que ele vivia numa bolha. Até os 12 anos, antes de o irmão nascer, Leo nunca tinha convivido com ninguém com deficiência. E nessa convivência, ele despertou para um novo mundo e teve vontade de compartilhar o que sentia pelo irmão. Escreveu poesias, músicas e livros.

O tempo passou, ele acabou se formando em Direito, saiu de Belo Horizonte para trabalhar e ficou sete anos fora. Aos fins de semana, voltava para a casa dos pais e reclamava que o irmão ficava sozinho e sem atividade. Foi quando entendeu seu papel naquele contexto e chegou à conclusão que estava terceirizando responsabilidades.

“O ativista não é quem aponta que o rio está sujo, é quem com atitudes concretas vai lá e faz. Então, seja a inclusão que você quer ser no mundo. Eu sempre acreditei nisso e eu estava pedindo pra minha mãe e não estava fazendo”.

No dia do aniversário do Dudu, em 2008, Leo decidiu abandonar a carreira – ainda não era casado – pra poder se dedicar mais ao irmão. A partir daí, ele e o irmão passaram a contar suas histórias, em palestras, livros… e nasceu o projeto Mano Down, com o intuito de levar para mais pessoas o que ele estava fazendo com o irmão.

“Aprendi, nessa jornada, que não existe empatia. Porque você nunca consegue se colocar no lugar do outro. Existe a humildade de você se aproximar daquela realidade diferente da sua”.

Leonardo refez a carreira em Belo Horizonte e dedicava os fins de semana ao projeto Mano Down. Em 2013, se deparou com a finitude da vida, com o câncer meu pai, e também com o nascimento das filhas, a Eduarda e a Laura. E resolveu fazer uma nova virada para se dedicar exclusivamente ao projeto.

“Em 2015, abandonei tudo. Vendi meu patrimônio, baixei meu padrão de vida todo em prol daquilo que eu acreditava, que fazia sentido. A vida é curta e a gente precisa ser autêntico, aprendi isso com meu irmão. A vida é tão pequena, a gente controla tão pouco, a gente controla 5%. Então, seja protagonista do seu 5%”.

A partir daí, lançaram o Instituto Mano Down. “Estou fazendo aquilo que acredito. Não é fácil, a gente tem que fazer escolhas, não dá pra ter tudo. Então propósito pra mim é mais vezes você fazer aquilo que faz sentido pra você e, com exemplos, talvez você contamine outras pessoas’. 

DIFICULDADES, OPORTUNIDADES E VITÓRIAS NESTA JORNADA.

Leo afirma que são vários aprendizados nesta jornada. O primeiro é que a nossa sociedade entende que o trabalho no terceiro setor tem que ser voluntário. Ele, inclusive, tinha esse mindset. No entanto, ele entendeu que é preciso dedicação e gestão para gerar mais impacto. “Um dos legados que eu quero deixar é que a nova geração entenda que pode trabalhar com terceiro setor e ser remunerada por isso”.

Para o Mano Down, inclusão é legitimar cada pessoa como ela é. “O sonho grande do nosso instituto é não existir, porque todo mundo vai estar incluído no mercado de trabalho, vai estar todo mundo tocando a família. Nossa principal bandeira é educação inclusiva, é todo mundo convivendo junto”. Ele acrescenta que incluir não é fazer um favor, pois a diversidade e a inclusão são uma potência. E isso é outro aprendizado.

“Quando a gente perde o ser humano, quando ele podia ser melhor que ele é, toda a humanidade perde. É isso que a gente acredita, os desafios são enormes porque queremos impactar ainda mais gente. Queremos também atrair pessoas, talentos, contatos, estar em espaços como esse aqui do Inovação em Pauta”.

SOBRE O LEONARDO GONTIJO

Léo nasceu numa família de classe média em Belo Horizonte, foi caçula de três irmãos por 12 anos. Seu irmão mais novo, Eduardo, nasceu com síndrome de Down. Leonardo se formou em Direito e Engenharia Civil.

Fez cinco especializações, mestrado em Administração com ênfase em Responsabilidade Social, foi executivo de grandes empresas e não encontrou a felicidade e sentido para sua vida trabalhando no mundo corporativo. Por isso e por amor ao seu irmão, ele abandonou a carreira e idealizou o Instituto Mano Down.

Leo é casado com Carolina, pai de Eduarda e Laura, e gosta ser apresentado como um ser humano em busca de uma sociedade mais justa, humana e inclusiva.

SOBRE O INSTITUTO MANO DOWN

O Instituto Mano Down é uma organização sem fins lucrativos que promove a autonomia e inclusão de pessoas com síndrome de Down e outras deficiências. O Mano Down surgiu a partir do amor de Leonardo Gontijo por seu irmão caçula, o Eduardo – também conhecido como Dudu do Cavaco; músico com síndrome de Down.

A ideia era dar visibilidade e criar oportunidades para que as pessoas com síndrome de Down possam ser incluídas na sociedade e reconhecidas por suas capacidades. Desde a sua criação, o Instituto vem evoluindo e se transformando para atuar em todas as fases de vida das pessoas com deficiência intelectual e promover o desenvolvimento, a autonomia e a inclusão.

No último dia 20 de maio, o Mano Down lançou o projeto Avante Mano Down – Ecossistema da Inclusão para a ampliação da nova sede da organização, maior e mais moderna, em Belo Horizonte. A inauguração do novo espaço está programada para ocorrer em fevereiro de 2022.

Para saber mais:

CONHEÇA A PESQUISA PERFIL DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA EM BELO HORIZONTE 

A pesquisa quantitativa feita pelo Instituto Mano Down mapeou a incidência de pessoas com deficiência e, em especial, com síndrome de Down em Belo Horizonte (MG). O estudo, realizado, em parceria com o Instituto Vox Populi, utilizou dois tipos de amostragem, a probabilística e a intencional – Famílias Down. 

LIVROS PUBLICADOS POR LEONARDO GONTIJO

  • Mano down: relatos de um irmão apaixonado
  • Não importa a pergunta, a resposta é o amor
  • Mano Down
  • Quer saber? Eu quero contar – Aprendizados e lições na síndrome de Down

EM TEMPOS DE PANDEMIA, VACINAÇÃO DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA É TEMA RELEVANTE.

No último domingo (13/06), o Nexo Jornal publicou uma reportagem sobre a demora para a inclusão de pessoas com deficiência permanente no Plano Nacional de Imunização. De acordo com a reportagem, isso é reflexo do apagamento e da exclusão social vivenciado historicamente pelas pessoas com deficiência. Suas vidas e histórias são invisibilizadas e, aos olhos da sociedade, valem menos que das pessoas típicas. Em relação à vacina, essa exclusão vem sendo atualizada com nova roupagem. Leia aqui a reportagem completa.

SOBRE O CANAL INOVAÇÃO EM PAUTA

Como o objetivo de desmistificar o conceito de inovação, nasceu o programa Inovação em Pauta, um canal de conteúdo no Youtube, Facebook, Instagram e LinkedIn que promete informar, inspirar e principalmente apresentar de forma clara e simples como o ecossistema da inovação se movimenta em Minas Gerais e no Brasil.

O programa representa uma imensa oportunidade de se manter atualizado sobre tudo o que é feito e por quem são feitas as inovações mais relevantes no mundo de hoje, o que está acontecendo no Brasil e no mundo, quais as principais tendências e como não ficar de fora dessa transformação digital.

São três idealizadoras, Alessandra Alkmim e Janayna Bhering, especialistas em tecnologia, inovação e empreendedorismo, com forte atuação no mercado. Francis Aquino é jornalista empresarial e atua fortemente na identificação de oportunidades, divulgação e promoção do capital intelectual brasileiro.

Programação: todas as quintas-feiras, às 19h, ao vivo no Youtube.

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Confira outras entrevistas desta temporada:

Marcelo S. Pires – CEO e Fundador da Consolidar Diversidade nos Negócios

Cecília Fadul – empreendedora educacional e diretora de uma escola inclusiva

Caio Filippo Saldanha – homem trans, idealizador do Projeto Transformar

Tarso Oliveira – empreendedor social que através da sua empresa auxilia negócios a utilizarem a diversidade como estratégia de mercado

Bruna Rosa – profissional de Relacionamento com o Cliente na Fundep, que fala sobre superação pela autonomia e as oportunidades de desenvolvimento das tecnologias assistivas

Com Redação de Roberta Florido.

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