Inovação com pessoas, não recursos

Inovação em Pauta 04 – 18/06/2020

Entrevistada: Heloísa Junqueira (Psicóloga e Consultora em Gestão de Pessoas)

Para inovar, o ambiente faz muita diferença. Nos três episódios anteriores do Inovação em Pauta, essa afirmação foi reforçada por todos os entrevistados: Rodrigo Cazarolli da Arcelor Mittal (Açolab), Paulo Renato do Sebrae Nacional e Mariana Yazbeck da Fiemg (FiemgLab). Eles detalharam em suas jornadas profissionais como aprenderam e permanecem cultivando questionamentos sobre o porquê e o como fazer algo, conectando pessoas e transformando ambientes.

A área de Recursos Humanos também tem a sua própria jornada de transformações nas empresas. Com as produções em escala industrial, teve um momento que as organizações precisaram conectar o homem com as máquinas, visando escala em um ambiente de produção, estrutural, processual. O nome RH pegou. Hoje, nos vemos repensando novamente essa relação: o termo “RH” e o significado das pessoas nas organizações. Essa transformação digital coloca no passado o que não faz mais sentido nos tempos atuais. Há o incômodo quando somos chamados de recurso.

Fomos em algum momento máquina, fazíamos relatórios, gerávamos informações. Hoje temos muitos recursos automáticos e mais eficientes para isso. “Vamos deixar a máquina fazer o que já foi feito por nós – porque naquele tempo não tinha como ser feito, que não fosse pelas pessoas -, e vamos nos dedicar ao relacionamento, às conexões, à inovação”, enfatiza Heloísa Junqueira, nossa entrevistada aqui.

É ela também que menciona David L. Rogers, diretor de programas executivos da Columbia Business School. David já capacitou líderes em centenas de empresas de mais de 60 países como: Google, GE, Toyota, Visa, China Eastern Airlines, Kohler e Macmillan. Ele aborda, em um de seus livros, os chamados cinco domínios da Transformação Digital: clientes, competição, dados, inovação e valor.

O maior desafio é o que os físicos chamam de inércia. As leis da inércia dizem que um corpo em movimento tem o desejo ou a tendência de manter-se em movimento na mesma direção e velocidade e quanto mais massivo este corpo é, mais inércia tem, e é mais difícil mudar o curso. E o mesmo princípio se aplica às organizações. Quanto maior a organização, mais estrutura e complexidade operando em diferentes mercados, mais funcionários, diferentes unidades de negócio, mais difícil é realmente ter uma mudança organizacional.

Se para as empresas esse histórico e bagagem pesam ao decidir abrir-se ao novo, não é diferente para os profissionais que há anos se formam e especializam para atender às competências e habilidades dessas estruturas. O humano não era preso a esse sistema. O historiador Yurval Noah Harari conta, em um dos seus livros, o que a arqueologia evidencia. A evolução da espécie foi nos transformando em Homo Sapiens e, como tal, transformamos com mais velocidade e continuamente o mundo a nossa volta. A inovação, a criatividade humana foram possibilitando avanços tecnológicos, facilitando a relação do homem com o trabalho mais intelectual e menos mecânico.

“Os fluidos se movem facilmente. Eles “fluem”, “escorrem”, “esvaem-se”, “respingam”, “transbordam”, “vazam”, “inundam”, “borrifam”, “pingam”; são “filtrados”, “destilados”; diferentemente dos sólidos, não são facilmente contidos — contornam certos obstáculos, dissolvem outros e invadem ou inundam seu caminho… Há líquidos que, centímetro cúbico por centímetro cúbico, são mais pesados que muitos sólidos, mas ainda assim tendemos a vê-los como mais leves, menos “pesados” que qualquer sólido. Associamos “leveza” ou “ausência de peso” à mobilidade e à inconstância: sabemos pela prática que quanto mais leves viajamos, com maior facilidade e rapidez nos movemos”. Zygmunt Bauman, Modernidade Líquida, 1999

Até aqui, os conceitos da administração, história e filosofia reforçam a nossa complexidade humana, criativa e inovadora. A cada transformação no mundo, a história nos revela humanos em transformação, líquidos, flexíveis e adaptáveis. Então, diante desse novo humano que emerge, onde nos perdemos? Ou melhor, como nos encontramos, simplesmente humanos criativos e inventivos?

Freud explica. Nesta edição, a fonte é a psicologia com Heloísa Junqueira que atua com gestão de pessoas há mais de 15 anos, especializada em gestão do conhecimento e inovação. Passou por empresas grandes e de referência e desde 2016 dedica ao desenvolvimento de líderes e profissionais das áreas de Gente nas empresas. “Precisamos ser humanos e não recursos”, enfatiza.

Confira os principais pontos da entrevista, que você confere, na íntegra, no nosso canal do youtube:

https://www.youtube.com/watch?v=9c8UdzbBkrs

– Para quê Transformação Digital

“O digital traz a possibilidade do nosso dia-a-dia ser mais benéfico, mais ágil, seguro, tanto no sentido do trabalho quanto da vida. Possibilita o acesso à informação, o cruzamento de dados e infinitas análises desses assuntos. Existem algoritimos e programação, mas é o humano quem questiona o que faremos com essa tecnologia disponível. Transformamos a informação em ação”.

– A transformação digital e o impacto no humano

“A transformação digital impactou a dinâmica do mercado. Ela impulsionou uma grande onda de inovações e transformações que culminaram na quarta revolução industrial. E vem a pandemia, uma situação que exige mudanças drásticas para empresas e pessoas. A inovação humana ganha mais palco que os negócios. Precisamos atuar nesse passo atrás, junto às pessoas, incialmente”.

– Proposta de Valor

“No livro “Transformação Digital”, David Rogers traz entrega de valor abordando exemplos como a chegada da internet e a enciclopédia impressa. Toda uma cadeia de profissões e fornecedores existia para a produção de conteúdo até a encadernação e vendas. A empresa, resgatou que a sua proposta de valor era a informação e não a enciclopédia. A primeira transformação foi do impresso para o CD, e por aí vai. Há entrega de valor também como profissional de RH que foca em desenvolver os profissionais para a evolução do trabalho. O que interessa é a entrega de valor que engaja e sobrevive por atender a uma demanda social”.

“Uma das perguntas que eu frequentemente recebo sobre transformação digital, de executivos seniores que dizem: ok, eu concordo, vamos fazer isso, essa transformação digital, ou fazer um plano… Quanto tempo isso demora? Eu estou olhando para um plano de dois anos ou três anos? Porque eu tenho um orçamento e preciso planejar os estágios disso… E eu acho que isso é entender a oportunidade e o desafio um pouco erroneamente. Esse não é um projeto que você meio que faz e termina.

Transformação digital é na verdade sobre mudar a natureza da sua empresa e mudar a forma na qual você opera, mudar o jeito que as pessoas dentro da sua empresa operam e instalar diferentes processos organizacionais que permitam que você fique mais próximo do consumidor, mais adaptável, mais responsivo… Então não é um processo com começo e fim, mas uma mudança de como operar como negócio. Transformação digital não é sobre tecnologia. É sobre pessoas.” David Rogers em entrevista à TVAmcham, 2018

– O valor do empregado, sem a relação comando e controle

“A liderança propõe uma ação de comando e controle, manda e obedece. Tem um lado confortável para o empregado nessa relação, segue ordens, está no procedimento. Espera o treinamento, uma lista para fazer treinamento, alimenta o comando e controle. Quando tiramos essas camadas, vem o valor do empregado, o que ele conhece, o que de fato entrega, como ele se relaciona com o cliente final, a gente tem que ver a responsabilidade do empregado e se arriscar com isso. Que ideia eles têm dado, com quem ele conversa para despertar insights? Se o empregado sempre delegou para o chefe, a atitude não acontece”.

– O incômodo da liberdade de pensar

“Temos livre arbítrio para ver o ambiente que é favorável. Tenho exemplos de colegas que a empresa coloca a liberdade como pauta e o colaborador se sente incomodado. Sou eu que tenho que escolher? Eu que tenho que mudar de opinião? Não sou pago para fazer isso. Se está bom assim porque mudar? Qual é o valor do meu trabalho e como posso avançar cada vez mais? O que eu gosto, o que brilha meus olhos? A jornada pode ser como pessoa física, jurídica, prestador de serviço. Com o covid tem empregos minando e outros surgindo. Se o ambiente deixa aberto esses questionamentos ao colaborador ele está preocupado e atento às oportunidades para que a entrega de valor continue. Com essa liberdade ao pensamento, o foco o empregado será proativo em pesquisar, perguntar, por querer algo novo na sua entrega de valor”.

– Do individual para o coletivo: a força da colaboração

“O processo de transformação do indivíduo se potencializa em como as conexões se formam e estabelecem. E nesse ambiente não cabe a vaidade, o ego, é importante abertura para oferecer e pedir ajuda. Sobre a propriedade da ideia, de achar que vai perder se compartilhar. Por outro lado, se não é colocada em prática a ideia não vai acontecer, vai precisar de pessoas. Vejo o que as conexões são capazes de produzir, mais que as pessoas individualmente. A questão é a inteligência de identificar a rede necessária a se estabelecer para fazer rodar a sua ideia. As conquistas individuais são importantes, mas nunca maiores que a ideia compartilhada na diversidade”.

-Lutando contra o sistema, para um novo humano

– Tenha uma leitura de como você lida individualmente com essas mudanças.

– “Tire leite” dos produtos do processo que você é responsável. A ideia começa na prática do que está nas suas mãos.

– Lute contra a preguiça mental de deixar tudo como está.

– Destrua o que construiu se necessário. Se você não matar seu próprio processo, que está antigo, alguém fará por você.

– Identifique quem assina pela ideia que pensou na sua empresa. Certamente vai envolver investimento de tempo e financeiro. Sem patrocínio da liderança, não vai pra frente.

– Busque conexões que te apoiem.

– Se seu chefe não te escuta, quem ele escuta? Os aliados da ideia são importantes para fazer a ideia acontecer.

-Como reter os profissionais que agregam valor ao negócios

“Os jovens vêm com essa conexão mais aguçada. Chegam ao mercado e levam o grupinho, andam em bando, estabelecem conexões fortes. Um sai e leva a turma. Como reter talentos? Oferecer um ambiente desafiador e interessante para ele querer ficar.

As relações têm força maior que a instituição. Os profissionais pensantes não estão mais preocupados com o salário nem CNPJ. Eles querem conexão com o que é valor para eles e menos com a marca e com a empresa. Buscam admiração e respeito nessa relação”.

– Humanos, não recursos

“Mais que recursos, o termo Fonte seria o mais adequado para chamarmos as relações do humano dentro das empresas, atualmente. Fonte é inesgotável, se renova de conhecimento, é problema também, erra acerta, aprende, faz parte do processo humano. Fonte de calor humano, na inovação, na criatividade, no pensamento, no conhecimento”.

Se faz sentir, faz sentido

“O novo normal nos tira do comodismo e provoca muitas perguntas às pessoas e empresas. Sobreviverão aqueles que antes de agir por afobação, pensam e conectam com o valor que querem gerar nesse momento, que faça sentido. O que o outro quer, o que eu posso acolher? O momento pede para transformar o que está cristalizado e mudanças pensadas que agreguem valor ao cliente, ao indivíduo, a uma comunidade”.

Redação: Francis Aquino Fernandes, para o canal Inovação em Pauta. Entrevista realizada no youtube em 18/06/2020.

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Mais sobre Heloísa Junqueira

Confira a webserie gratuita “Humanos não recursos” em seus canais:

www.heloisajunqueira.com.br

Linkedin / Instagram @hjunqueira

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SOBRE O INOVAÇÃO EM PAUTA

Como o objetivo de desmistificar o conceito de inovação, nasceu o programa Inovação em Pauta, um canal de conteúdo no Youtube que promete informar, inspirar e principalmente apresentar de forma clara e simples como o ecossistema da inovação se movimenta em Minas Gerais e no Brasil.

O programa representa uma imensa oportunidade de se manter atualizado sobre tudo o que é feito e por quem são feitas as inovações mais relevantes no mundo de hoje, o que está acontecendo no Brasil e no mundo, quais as principais tendências e como não ficar de fora dessa transformação digital.

Suas idealizadoras, Alessandra Alkmim e Janayna Bhering são especialistas em tecnologia, inovação e empreendedorismo, com forte atuação no mercado. Francis Aquino é jornalista empresarial e atua fortemente na identificação de oportunidades, divulgação e promoção do capital intelectual brasileiro.

Programação: todas as quintas-feiras, 19horas

Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=rABhCfwjVuk

@inovaçãoempauta

contatoinovacaoempauta@gmail.com

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FONTES DO E-BOOK:

Sapiens – Uma Breve História da Humanidade – Yurval Noah Harari, ed 2015

Modernidade Líquida – Zygmunt Bauman, ed. 2001

Sobre David L. Rogers:

Transformação digital: Repensando o seu negócio para a era digital, David L. Rogers, ed.2017

AmchamTV: Entrevista Transformação Digital, julho 2019

https://www.youtube.com/watch?v=oc7_n-CZMDo

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