Inovação em Pauta 02: A indústria aberta: inovação com segurança, colaboração e responsabilidade

Entrevistado: Rodrigo Cazarolli (Arcelor Mittal e AçoLab)

Abordamos na edição 01 do Inovação em Pauta, que em tempos de lojas fechadas, o comércio eletrônico se apresenta como uma solução necessária e até mesmo sobrevivência para muitos negócios. Quem já percebia a loja virtual como uma tendência forte, nesse cenário, se viu pronto para acelerar esse formato de atendimento e entrega ao cliente. Aqueles que se atentaram para essa necessidade com a chegada da pandemia, encontra fornecedores, tecnologia e benchmarks disponíveis para colocar com agilidade um piloto rodando.

A internet é a porta de entrada para comprar aço, por exemplo. O nosso entrevistado dessa edição é Rodrigo Cazarolli, responsável pelo centro de inovação da ArcelorMittal. A loja virtual da empresa, pioneira na venda de produtos em aço, cresceu 38% em março e abril, comparado aos meses anteriores à pandemia. Uma resposta que tem relação direta com o cumprimento das medidas de segurança biológica e o fechamento de suas lojas físicas pelo Brasil. O site, interligado a um processo de eficiência em produção e logística, se fortalece como um jeito novo de se relacionar com o cliente, entender a suas dores, necessidades e atendê-lo. Esse, um dos exemplos de aplicação de melhoria em um processo robusto e estruturado de inovação contínua, que têm contribuído para os resultados da empresa, que mostra ainda mais fortemente seu valor no contexto atual.

Antes, uma parada para analisar o contexto atual do setor industrial, identificado como o mais afetado pela pandemia segundo o Indicador Antecedente Composto da Economia Brasileira (Iace), calculado pelo Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre), em parceria com o The Conference Board (TCB) – uma organização sem fins lucrativos para membros de empresas e grupos de pesquisa. O Indicador permite fazer uma comparação direta dos ciclos econômicos do Brasil com os de outros 11 países e regiões já cobertos pelo TCB: Alemanha, Austrália, China, Coreia, Espanha, Zona do Euro, Estados Unidos, França, Japão, México e Reino Unido. O estudo foi divulgado em 1 de abril e consultou 3.363 empresas, entre os dias 1º e 25 do mês de março.

No estudo, mais de 30% das empresas brasileiras, em todos os setores, perceberam o impacto da pandemia em março. Na indústria, o impacto foi confirmado por 43% das companhias entrevistadas. A indústria é uma cadeia que deságua em outros setores. No comércio, os ramos de atividade que afirmam ter sido mais atingidos em março são em parte ligados a revendedores de bens de consumo duráveis e semiduráveis. Segmentos com maiores percentuais de impacto foram veículos, motos e peças (46,4%), material para construção (39,9%). Das oito séries componentes do Iace, os índices de Expectativas da Indústria, Serviços e Consumidores foram os que mais contribuíram negativamente para o resultado, mostrando recuos na margem de 46,6%, 33,5% e 28,9%.

Nesta edição, e diante desse contexto, Rodrigo nos traz reflexões sobre diversas práticas da inovação contínua na indústria, em entrevista a Alessandra Alkmim e Janayna Bhering. O profissionalismo traduzido pela cultura de um grupo que é o maior produtor de aço do mundo e trabalha intensamente focado na transformação, protagonizando o futuro, hoje, tendo a inovação como alicerce.

As empresas acordaram para a inovação. Era 1980 quando 77 satélites começaram a ser desenvolvidos como uma solução mais eficiente em escala e custo às torres de telefonia. Enquanto a Motorola e outras empresas da cadeia se empenhavam nessa inovação, as torres foram ficando mais baratas. O resultado já conhecemos, decorrente de um impacto financeiro que quebrou empresas gigantes, líderes mundiais. Até poucos anos atrás, Motorola, Nokia, os celulares eram só dessa marca e sumiram do mapa. Essa e outras histórias reais foram trazidas em 2013 no livro Organizações Exponenciais. O caso dos 77 satélites, nomeado de Iridium (elemento 77 da tabela periódica), referencia a utilização de ferramentas lineares e tendências do passado pelas empresas, para prever um futuro em aceleração. Essa reflexão é traduzida quando comparamos o crescimento que desejamos do negócio, ao “timing” de implementação da ideia.

Se podemos dizer que as perguntas mudaram de lugar ao longo do tempo, as ideias e a inovação estão por toda parte e sempre existiram. O desejo de explorar, inerente ao ser humano, fez com que buscássemos desenvolver conhecimentos e tecnologias para se alimentar, explorar a face da Terra com as criações de Henry Ford, e mais recente o universo, de um novo jeito, como a Tesla e a Nasa nos mostraram recentemente, com a SpaceX. Esses casos são indústrias e fazem parte também da cadeia do aço.

 “Antes o processo de mudança era lento. Demorava anos, assistíamos as mudanças acontecer, protegidos pelos recursos que a empresa tinha. Hoje a mudança chega do dia pra noite, implacável e em mercados que você não mirava pelo modelo de negócio, setores paralelos que atropelam todo um setor. A Covid é um acelerador disso tudo. Trouxe as tendências que já existiam de forma rápida.”

Confira os pontos principais trazidos na entrevista, que detalha o modelo estruturado, da empresa que tem um histórico de investimento em inovação, contabiliza hoje 12 centros de pesquisa espalhados pelo mundo, com mais de 1200 pesquisadores full time analisando temas relacionados ao aço e as suas aplicações.

– A inovação aberta – quando uma solução de uma empresa é aberta ao mercado para desenvolvimento de soluções conjuntamente e quase sempre, a resposta vem mais rápida – demanda um pensar sobre a segurança da informação, um tema sensível e importante para as indústrias diante da competitividade e diferenciação. Um entendimento entre as partes e maturidade para não entender os acordos necessários, como barreiras.

“Entendemos a inovação aberta como uma oportunidade para co-desenvolvimento de soluções e ganho de competitividade. Não quer dizer que você vá fazer inovação aberta e relaxar as barreiras quanto a segurança. É fundamental os acordos de confidencialidade já no início do projeto dos nossos laboratórios. Criamos ambientes seguros com informações selecionadas e específicas, que são relevantes para projeto, não disponibilizamos tudo. Há contrato de confidencialidade, uma parceria muito grande com o time de TI para avaliação de vulnerabilidades. Importante trazer adeptos que entendem a importância dessa relação, compartilhando informações”.

– Inovação aberta e fechada: uma complementariedade.

“Não que a inovação fechada não seja mais importante, longe disso, mas a importância de ambas trabalhando juntas. É isso que a gente acredita e vem investindo. Várias empresas do mercado seguem essa linha e trazem resultados fantásticos para a empresa não somente no ponto de vista financeiro, mas na própria transformação da cultura da empresa, que é super importante também.”

– Inovação não é uma área e o erro preciso do time integra o processo de aprendizagem. Colaboração e informação descentralizada são chaves para fortalecer a criatividade e estimular novos modelos de fazer da equipe – que assume a inovação como sua própria responsabilidade, não delegável a uma área.

“Na inovação incremental, percebemos várias ações com impacto significativo, coisas simples que trazem um ganho pela própria equipe operacional, de produtividade, muitas vezes feitos pela própria equipe. O que a gente faz como área de inovação é ajudar fortalecer esse ambiente, capacitar, dar as ferramentas adequadas para essas pessoas. Que elas podem fazer, têm apoio e se errar, vamos aprender juntos.”

– As grandes empresas não precisam querer ser startups

“As pequenas empresas vêm com apelo do novo, agilidade, criatividade, quebra de paradigmas que são surpreendidas e é muito sedutor. As grandes não têm essa agilidade. As statups precisam das grandes empresas para escalar suas soluções. As grandes bebem das startups sobre cultura ágil, o foco no cliente, jornada diversas, soluções que agregam valor, temas que as startups trazem de uma forma muito leve. A combinação desses dois mundos que trazem os resultados que são efetivos”.

– Time que está ganhando, também se mexe, mas não se deixar seduzir pelas palavras da moda. O que chega como inovador precisa fazer sentido para o negócio, aderente a uma estratégia traçada pela inovação e ter clareza de que aquele caminho faz sentido para onde se quer chegar.

 “O grande ponto que parece simples, mas é complexo na prática, é a questão da cultura e da humildade. As empresas por mais bem-sucedidas não são perfeitas, podem aprender com o pequeno e se tornar melhores. Vejo empresas com barreiras internas de achar que são muito boas e basta – equívoco. E outras com dificuldade em trazer a cultura da inovação pra dentro. Não é fazer só o que está dando certo. Trazer a cultura para dentro da empresa é complexo, leva tempo e dá trabalho.”

– De dentro pra fora, propósito e responsabilidade social. A empresa hoje conecta pessoas não pelo que vende, mas como trabalha. A sociedade está muito mais atenta se a empresa pratica internamente o que diz fazer.

“ O mundo está em constante mudança, sempre conectado e monitorando o que está acontecendo. Um consumidor mais conectado, imediatista, quer sabe o que está por traz do produto, se é socialmente responsável. As empresas estão se atentando para isso. Vai além das questões de marketing. De fora e por dentro, o empregado é uma propaganda da empresa. O mercados, as empresas que querem se manter relevantes, têm que ser relevantes e comunicar para fora e para dentro o que está por traz do produto. ”

– Atenção às tendências de comportamentos e necessidades. O que é demandado hoje pode mudar a qualquer momento. É preciso construir o amanhã muito atento ao comportamento das necessidades do cliente e com agregação de valor.

“O aço é base para vários mercados, está presente em tudo, de um arame de um caderno a um iphone. Aplicações diversas e esses mercados estão sofrendo mudanças. A evolução da nanotecnologia, impressão 3d em aço. A Arcelor tem uma proposta de valor para aquele cliente entender o seu problema e ofertar soluções que façam sentido para ele. Uma solução é a armadura pronta, uma estrutura que sai montada e o cliente coloca com um guindaste. Isso representa ganho de produtividade, redução de custo e de acidentes. A capacidade de resposta da empresa é muito forte, e a proximidade que a gente tem como os clientes, potencializa a inovação nos vários mercados que a gente atua”.

– Onde investir mais na indústria: inovação incremental ou disruptiva? As duas!

“Nos estudos sobre inovação, as aplicações que dão mais sustentação à empresa são as incrementais – 70%. As disruptivas ficam em horizontes chamados de 2 e 3, visam novos negócios que estamos desenvolvendo com potencial de trazer uma receita grande e nova. Não há conflito entre as duas, são balanceadas. Impossível desvincular inovação da empresa com a estratégia. Por exemplo o mercado de remédios, por exemplo, investe muito em inovação por questão de sobrevivência. Investem porque querem sobrevier a longo prazo e precisam de vínculo com a estratégia da empresa. Quanto mais direcionada a estratégia, mais focado será o portifólio seja voltado para o presente ou futuro”.

– Se não quer risco, não inove. Inovação e risco são duas coisas impossíveis separar. 

“Se não quer risco, não inove, mas assuma as consequências dessa inovação. Setores mais fechados com pouquíssimos competidores talvez possam sobreviver sem inovar e arriscar muito. Mas de uma forma geral, o risco é inerente. Volto na cultura, os riscos precisam ser permitidos, o erro honesto, do processo de aprendizado, da experimentação. Se não tolera ao risco, não tolera o erro e mata o processo de inovação”.

– Sozinho, não! Esqueça o herói da inovação e construa uma rede, uma liga da justiça

 “A inovação nasce a partir de uma visão e se sustenta com base em resultados. Sozinho o máximo que vai conseguir é stress, perder o sono. Heróis da inovação não têm vida longa. O gestor da inovação nada é que um grande costureiro, pra dentro e pra fora da empresa, facilitando relacionamentos, projetos. E a partir disso o resultado é direto”.

– Independentemente do futuro, seja o protagonista e atente-se as sinais fortes.

“Peter Drucker nos ensina que a gente não pode prever o futuro, mas podemos criá-lo. É difícil prever mesmo acompanhando cenários e prevendo tendências. Assumir como protagonista desse futuro e criá-lo. Para se manter relevante no famoso mundo VUCA é preciso responder de forma ágil. A medida que você tem tempo de resposta, você adapta e se molda com o que está se materializando de forma mais forte”.

– Conheça as iniciativas da ArcelorMittal em inovação no preparo ao futuro que está emergindo:

“O aço tem apelo sustentável enorme, é infinitamente reciclável, preço baixo, vantagens que o torna um produto atrativo em várias aplicações. Temos a estratégia de soluções de alto valor agregado. Em construção modular, estamos com uma área na Arcelor dentro da USP com equipe de engenharia e inovação em diversas frentes. Analisamos também tendências como a impressão 3D, com os custos associados a impressão caindo cada vez mais, para a construção de uma casa por exemplo. Isso vai virar a chave e precisamos estar preparados para atuar. Vejo mais oportunidades que ameaças nesse novo contexto. Independentemente de estarmos abertos e fechados na inovação o nosso foco “job to be done” é de como resolver o problema do cliente, um problema relevante. Mais que o produto em si, o benefício que ele vai trazer, a jornada antes de comprar, a procura e até depois que ele comprou. Temos que otimizar essa jornada, cuidar desse cliente. Quando têm uma experiência boa, são a nossa propaganda. É nessa estratégia que a gente acredita muito, investe e temos aplicado com muito sucesso”.

Conheça as iniciativas da Arcelor Mittal e o fomento à inovação

E-commerce: uma operação online de ponta a ponta, que integra loja virtual, estoque e distribuição. Integra a estratégia da empresa de ampliar sua presença no varejo de aço e de aproximação dos consumidores finais de serralheiros, pedreiros e pessoas que estejam construindo, reformando ou ampliando suas casas.

https://loja.arcelormittal.com.br/

iNO.VC: é o laboratório (programa) de Inovação Digital para o segmento de aços planos no Brasil que tem como objetivo conectar pessoas para antecipar o amanhã. Colaboradores, startups, acadêmicos (professores e alunos) e demais agentes do ecossistema formam a nossa comunidade. Organiza e recebe atividades que encorajam as pessoas a se envolverem em nossos desafios e acelerar a transformação digital da empresa.

AçoLab: local de referência do ecossistema de inovação, reúne empregados, clientes, startups, pesquisadores e estudantes, em uma estratégia composta por quatro pilares: fortalecimento da cultura de inovação, desenvolvimento de projetos de alto valor agregado, captação de linhas de fomento e relacionamento estratégico.

Engenharia Inovação: Startup criada em parceria com a Impacto que visa desenvolver soluções construtivas inovadoras garantindo maior produtividade e eficiência no canteiro de obras. A iniciativa conta com uma equipe de engenheiros projetistas, dedicados e capacitados para aplicar as melhores soluções estruturais da ArcelorMittal alinhado aos desafios e necessidades dos clientes. Focando principalmente na industrialização do canteiro, através de soluções de armaduras pré-montadas, com ferramentas em BIM e visualização 3D será possível aumentar a integração entre a siderurgia, projetista, obra e centrais de serviço.

Cátedra “Construindo o Amanhã”: convênio com a Universidade de São Paulo (USP) para lançar a iniciativa que visa aumentar a industrialização e produtividade da Construção Civil, através da inovação e sustentabilidade em toda a cadeia do segmento. A parceria promove reflexões, pesquisas, atividades, formação de profissionais e a atração de novos talentos para o mercado da construção civil. Uma das primeiras iniciativas do convênio é a construção do novo prédio do Centro de Inovação em Construção Sustentável (CICS), um “living lab” que irá aplicar as melhores soluções construtivas do mercado.

Artigo escrito por: Francis Aquino Fernandes

Assista o bate-papo:

https://www.youtube.com/watch?v=rABhCfwjVuk

 

SOBRE O INOVAÇÃO EM PAUTA:

Como o objetivo de desmistificar o conceito de inovação, nasceu o programa Inovação em Pauta, um canal de conteúdo no Youtube que promete informar, inspirar e principalmente apresentar de forma clara e simples como o ecossistema da inovação se movimenta em Minas Gerais e no Brasil.

O programa representa uma imensa oportunidade de se manter atualizado sobre tudo o que é feito e por quem são feitas as inovações mais relevantes no mundo de hoje, o que está acontecendo no Brasil e no mundo, quais as principais tendências e como não ficar de fora dessa transformação digital.

Suas idealizadoras, Alessandra Alkmim e Janayna Bhering são especialistas em tecnologia, inovação e empreendedorismo, com forte atuação no mercado. Francis Aquino é jornalista empresarial e atua fortemente na identificação de oportunidades, divulgação e promoção do capital intelectual brasileiro.

Programação: todas as quintas-feiras, 19horas

Acesse:

https://www.youtube.com/watch?v=rABhCfwjVuk

@inovaçãoempauta

contatoinovacaoempauta@gmail.com

 

FONTES:

Site ArcelorMittal Brasil:https://brasil.arcelormittal.com.br/

Valor Econômico: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2020/04/01/industria-e-o-setor-mais-afetado-por-pandemia-em-marco-diz-ibrefgv.ghtml

Agência Estado: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2020-05/indicador-aponta-impactos-da-covid-19-na-economia-brasileira

Livro Organizações exponenciais (Ed. 2013): Salim Ismail, Yuri Van Gees, Michael S. Malone

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