Inovação em Pauta 08: Empreendedorismo Acadêmico para Impacto Social.

Entrevista com Dr. Marco Romano (Faculdade de Medicina da UFMG e Startup ADDHERE) realizada em 16/07/2020.

Nos episódios anteriores, o Canal Inovação em Pauta abordou várias jornadas de empreendedorismo de sete profissionais que atuam multiplicando conhecimentos e novas formas de fazer e impactar a sociedade gerando novos negócios. As sete histórias têm algo em comum: em nenhuma delas o nosso convidado aprendeu empreendedorismo e inovação em uma grade curricular obrigatória durante a graduação.

No movimento de avanços para que a inovação seja para todos, a universidade é fundamental no fomento amplo à geração de novos empreendedores. O artigo “Desafios atuais e caminhos promissores para a pesquisa em empreendedorismo” (2019), dos pesquisadores Rose Mary Almeida Lopes e Edmilson Lima, traz os avanços e paradigmas do tema. “O campo de pesquisa do empreendedorismo apresentou aumento significativo da produção científica nas duas últimas décadas, atraindo pesquisadores de muitas disciplinas. Houve progresso considerável quanto à qualidade das pesquisas e na legitimidade do campo. Contudo, ainda enfrenta consideráveis desafios para continuar seu avanço. O campo é muito heterogêneo em definições para conceitos básicos e em abordagens; continua carente, por exemplo, de consenso sobre a definição do que é seu próprio objeto de estudo. Assim, há distintas compreensões sobre o que é o empreendedorismo (…)”.

No contexto dos avanços, o ano de crise sem precedentes impacta a economia, gera desemprego e turbina, por necessidade, a inovação. O GEM (Global Entrepreneurship Monitor), citado na revista PEGN, destaca que a pandemia da Covid-19 “deve impulsionar o número de pessoas que vão buscar o empreendedorismo como uma alternativa de renda. Em 2019, o GEM apontou que o Brasil atingiu 23,3% de taxa de empreendedorismo inicial, considerada a maior marca até agora e o segundo melhor patamar total de empreendedores desde 2002 (38,7% da população entre 18 e 64 anos)”.

As disciplinas são uma divisão artificial feita pelo homem para facilitar as práticas de ensino. Vale refletir: faz sentido o atual formato de aprendizagem? Como e por que quebrar os paradigmas do aprendizado tradicional? Quais conhecimentos extracurriculares preparam pessoas para a inovação e o empreendedorismo?

O doutor Marco Romano é pesquisador e empreendedor na área da saúde e nos conduz nessas e em várias outras reflexões. Professor titular de psiquiatria e diretor do Centro de Tecnologia em Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da UFMG, Romano é cofundador da startup Addhere – uma plataforma de facilitação do diagnóstico e de apoio no tratamento do TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade)

A seguir, confira os principais apontamentos do Dr. Marco Romano durante a entrevista. A íntegra desta conversa está disponível no YouTube.

A INTEGRALIDADE DO SER HUMANO E AS HABILIDADES EXIGIDAS PELO MERCADO – Empreendedorismo como disciplina para abertura a uma nova mentalidade, além da pesquisa e do emprego.

A disciplina de empreendedorismo é ofertada na pós-graduação, mas a maior parte dos alunos inscritos é da graduação, com um alcance ainda pequeno. Precisamos avançar mais e uma das maneiras de fazer isso é promover, por exemplo, a Semana de Inovação, trazendo pra mais perto as experiências que mostram que empreender é possível, que empreendedorismo pode fazer parte da realidade dos alunos.

Embora o empreendedorismo estivesse sempre presente no meu percurso na ciência, só mais recentemente começamos a interagir com o mercado. A disciplina de empreendedorismo criada há dois anos possibilitou essa interação, especialmente com os alunos que estavam fazendo coisas que até então eu nunca havia visto – os alunos venceram uma hackathon e estão envolvidos com iniciativas mais rápidas, no universo das startups.

Apesar disso, a Medicina ainda é uma ciência conservadora. Os alunos e médicos são pessoas inteligentes, criativas, mas que não estão por dentro do ecossistema empreendedor. Por isso a tentativa da disciplina é tentar inserir os alunos nesse universo. 

Hoje, a realidade é diferente da minha, quando o ideal era fazer uma residência e atuar na clínica; são muitas faculdades, muita gente se formando e quem não se diferencia fica no nível basal. Há pesquisas que apontam que 70% da inovação na área de saúde vem dos médicos, mas nem sempre eles conseguem realizar isso. Eles precisam se associar.

A tentativa é mostrar que isso é possível, trazer esse pensamento para dentro da universidade e para área médica. A UFMG foi reconhecida como a melhor universidade federal do país (Times Higher Education) e a faculdade de medicina é uma das mais antigas e maiores (em número de alunos) do Brasil. Então, temos uma obrigação de quebrar barreiras e movimentar o sistema. Vamos abrindo caminhos à medida que outros vão se associando.

O IMPACTO SOCIAL DA CONEXÃO ENTRE EMPREENDEDORISMO E NOVA EDUCAÇÃO – Perguntas e soluções científicas e sua ação nas sociedades.

Hoje em dia o conhecimento está disponível, está em todo lugar. Nenhum paciente chega ao consultório sem antes ter lido tudo no Google. O médico não detém o conhecimento e precisa entender esse contexto geral do qual empreender faz parte.

A competitividade aumenta, os profissionais estão disputando espaço. Quem tiver um serviço melhor, for mais resolutivo e usar melhores métodos terá melhores resultados, mais pacientes, mais credibilidade. E isso também é empreender. É saber utilizar as novidades, ter ideias e conseguir melhorar o serviço prestado pela medicina para a sociedade.

O médico não pode ser estático – formar, montar um consultório e viver daquilo o resto da vida. É preciso acompanhar a evolução gigantesca do conhecimento. Temos a inteligência artificial impactando bastante, de forma rápida, e em algumas especialidades pode ser até capaz de tomar decisões, como na área de análise de imagem, mudando o papel do radiologista, por exemplo.

A solução é colocar todos juntos, no mesmo espaço. É o que fazemos na Addhere, o que fazemos quando trazemos os empreendedores para dentro da universidade, para conversar com os acadêmicos e quem faz pesquisa. Os mais jovens têm mais visão dessa realidade, até mesmo áreas como engenharias e exatas têm mais interação com o mercado. Para a medicina isso ainda é um tabu. Mas as pessoas se esquecem dos ganhos sociais que vêm junto com os ganhos financeiros promovidos pelo empreendedorismo.

O PAPEL DE INSTITUIÇÕES DE ENSINO NA PROMOÇÃO DE UM AMBIENTE PROPÍCIO AO ESTÍMULO DA INOVAÇÃO – Conexão universidade-mercado para ganhos no fomento à inovação.

O conhecimento é gerado dentro das universidades, especialmente no Brasil. É papel das universidades produzir conhecimento. Elas precisam fazer isso de forma acessível, de forma que o ambiente externo possa interagir com a universidade. Na UFMG, antes mesmo da regulamentação do Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação, a universidade já estava trabalhando as resoluções que foram aprovadas pelos conselhos superiores, permitindo abertura e maior interação dos pesquisadores com o mercado.

Hoje, o pesquisador tem possibilidade de explorar comercialmente suas ideias, em associação com empresas. A UFMG saiu na frente nessa flexibilização, permitindo que o professor que tem uma ideia e quer desenvolvê-la com o mercado pode fazer isso de forma legal e clara.

O papel da universidade é justamente esse, fomentar o contato entre pesquisadores e mercado. É preciso acabar com a desconfiança que o mercado tem das universidades, de que é complicado, de que vai perder investimento. Isso tudo mudou demais e dentro da Fundep (Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa) hoje há várias iniciativas aproveitando justamente a abertura proporcionada pelo novo Marco Legal.

Na área médica ainda há pouco conhecimento sobre essas mudanças. Embora seja uma área quente de inovação, com projetos de alto valor agregado e grande aplicabilidade, poucos professores têm noção disso. É um momento de “catequizar”, com promoção de interação por parte da universidade.

A PANDEMIA COMO CATALISADORA DE INOVAÇÃO E TRANSFORMAÇÃO DIGITAL NA SAÚDE – A experiência disruptiva da Addhere e o impacto na sociedade.

O ensino não vai mais ser o mesmo. Muitos professores nunca imaginaram que teriam que fazer uma aula online ao vivo, por exemplo. Coisas básicas do dia a dia estão mudando. A crise traz em seu rastro mudanças que são aceleradas em termos de inovação e pesquisa, coisas que levaria ainda anos para acontecer.

Nesse momento temos acesso a desenvolvimento científico que permite acompanhamento do que acontece no mundo todo no contexto da pandemia e isso deixa também um aprendizado. O próprio consumo está sendo repensado e isso vai mudar: o que estamos consumindo e quanto, seja em termos de mídias ou de bens de consumo.

A pesquisa e inovação estão em “fermentação” e muita coisa boa virá por aí. Consciência ambiental também está mudando. Tudo isso também é oportunidade para empreender.

No caso da Addhere, tudo começou com uma conversa sobre blockchain e o interesse em usar para ajudar na prática médica. Na época, já surgiam iniciativas com uso de inteligência artificial em diagnóstico. Para desenvolver a ideia, nos unimos a outros profissionais que hoje formam um grupo estelar, focado na construção de uma plataforma que permita fazer diagnóstico de transtornos do desenvolvimento – com foco no déficit de atenção e hiperatividade – atuando junto ao posto de saúde, aos pais e à escola. 

Esse é um diagnóstico difícil e costuma acontecer tardiamente. O interesse é antecipar esse processo e garantir estratégias de tratamento comportamental ou medicamentoso para que essas crianças não percam uma parte do seu desenvolvimento e da sua trajetória escolar.

É uma reunião de pessoas de áreas diferentes, advogados, farmacêuticos, engenheiros, médicos, jornalistas em um projeto multidisciplinar com foco na criança em desenvolvimento. Podemos ajudar os pais, que ficam perdidos, e as crianças que podem florescer, sem ficar presas nesse entrave. É com esse espírito que a Addhere nasceu.

Temos financiamento do CNPQ, especialmente na relação da plataforma com o Sistema Único de Saúde (SUS), mas é uma jornada ainda em andamento, um caminho que estamos trilhando.

PESQUISA, EDUCAÇÃO E EMPREENDEDORISMO – Três pilares da jornada de um polímata.

A minha jornada na pesquisa começou ainda nos primeiros períodos da graduação em Medicina, em projetos de Iniciação Científica na área da neuroquímica. Já no doutorado, ingressei na psiquiatria, conhecendo profissionais que hoje são referência nacional na área durante um estágio na Universidade de Londres.

Eu sempre fui muito inquieto na pesquisa, nunca consegui ficar em um tema só – eu trabalhava com neurotoxinas mas ao mesmo tempo estava interessado na neurociência clínica. Quando voltei para o Brasil e defendi meu doutorado, em 1994, eu entrei para o Departamento de Farmacologia da Faculdade de Medicina da UFMG, onde continuei trabalhando com neurotoxinas. Em 2007, migrei para o Departamento de Saúde Mental, depois de concluir um estágio em genética e psiquiatria no Canadá.

Durante todo esse tempo, os profissionais com quem trabalhei são pessoas que empreenderam em alguma época da vida, atuando em iniciativas pioneiras como os testes rápidos de glicose ou estudos de marcação genética para resposta a medicamentos. Pessoas que faziam empreendedorismo na ciência.

Desde 2007, a experiência em psiquiatria tem sido muito boa. Em 2008, fomos contemplados com um investimento que gerou um “boom” enorme: montamos um laboratório bom, criamos o centro de tecnologia em medicina molecular, configuramos um parque tecnológico bem equipado e temos uma quantidade enorme de pessoas trabalhando e usufruindo dessa infraestrutura.

Nesse processo, conheci muitas pessoas e passamos a discutir como trazer para a sociedade muitas das experiências que já estávamos fazendo nos laboratórios. Aí surgiu a ideia de usar inteligência artificial para melhorar o diagnóstico do transtorno de déficit de atenção, que resultou na startup Addhere. Hoje, são vários bons profissionais somando na atuação em uma área que não é fácil, mas que precisa muito da gente.

Foi a minha carreira de pesquisa somada à trajetória mais recente no ecossistema do empreendedorismo que me trouxe para esse encontro com o Inovação em Pauta.

Redação: Francis Aquino Fernandes e Thaís Helena, para o canal Inovação em Pauta. Entrevista realizada no YouTube em 16/07/2020.

 SOBRE A STARTUP ADDHERE

Trata-se de um time multidisciplinar que atua na disseminação de informação sobre TDAH, um transtorno que atinge 5% da população mundial. Nesse cenário, as famílias se consideram perdidas, os médicos frequentemente não identificam a causa e as escolas não foram preparadas para isso. A Addhere acredita que essas pessoas não precisam sofrer o impacto da diferença e possibilita um ambiente de conhecimento e estudos que possa ajudar a encontrar marcadores e caminhos, tornando a vida mais leve e bem vivida.

Conheçahttps://addhere.com.br/ – https://addhere.com.br/blog/.

SOBRE O CENTRO DE TECNOLOGIA EM MEDICINA MOLECULAR DA FACULDADE DE MEDICINA DA UFMG

O Centro de Tecnologia em Medicina Molecular (CTMM) da Faculdade de Medicina da UFMG foi inaugurado em 2011 como resultado do trabalho de médicos pesquisadores interessados em integrar a ciência à prática clínica, com foco em colaboração e inovação. Um importante polo de desenvolvimento da tecnologia PET/CT em Minas Gerais, contando com a colaboração próxima do Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN).

Em interface com setores da sociedade civil, o CTMM desenvolve pesquisas sobre mecanismos fisiopatológicos e novos protocolos de diagnóstico e tratamento, visando à consolidação de uma plataforma científico-tecnológica de alto impacto, por meio da qual os resultados científicos sejam transferidos ao paciente real.

Conheça: https://ctmm.medicina.ufmg.br/

SOBRE O CANAL INOVAÇÃO EM PAUTA 

Como o objetivo de desmistificar o conceito de inovação, nasceu o programa Inovação em Pauta, um canal de conteúdo no Youtube, Facebook, Instagram e LinkedIn que promete informar, inspirar e principalmente apresentar de forma clara e simples como o ecossistema da inovação se movimenta em Minas Gerais e no Brasil.

O programa representa uma imensa oportunidade de se manter atualizado sobre tudo o que é feito e por quem são feitas as inovações mais relevantes no mundo de hoje, o que está acontecendo no Brasil e no mundo, quais as principais tendências e como não ficar de fora dessa transformação digital.

São três idealizadoras, Alessandra Alkmim e Janayna Bhering, especialistas em tecnologia, inovação e empreendedorismo, com forte atuação no mercado. Francis Aquino é jornalista empresarial e atua fortemente na identificação de oportunidades, divulgação e promoção do capital intelectual brasileiro.

Programação: todas as quintas-feiras, às 19 horas, ao vivo no Youtube.

Acompanhe nossos conteúdos também no YouTubeInstagram e Facebook ou fale conosco por e-mail: contatoinovacaoempauta@gmail.com.

 FONTES DO E-BOOK:

Ranking Times Higher Education (THE) 20/fev /2020

https://ufmg.br/comunicacao/noticias/ufmg-e-federal-brasileira-mais-bem-colocada-em-ranking-da-the-de-universidades-emergentes

Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação – E-book Fundep http://www.fundep.ufmg.br/e-book-marco-legal-cti/

Global Entrepreneurship Monitor (GEM)

Revista Pequenas Empresas Grandes Negócios “Brasil deve atingir marca histórica de empreendedorismo em 2020”

https://revistapegn.globo.com/Noticias/noticia/2020/06/brasil-deve-atingir-marca-historica-de-empreendedorismo-em-2020.html

Jornal Estadão “Empreendedorismo agora é disciplina que se aprende na escola”

https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,empreendedorismo-agora-e-disciplina-que-se-aprende-na-escola,70003024836

Portal Scielo “Desafios atuais e caminhos promissores para a pesquisa em empreendedorismo” Autores: 

https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0034-75902019000400284&script=sci_arttext

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