Inovação na Educação

Inovação em Pauta 06: (02/07/2020)

Entrevistado: Rafael Ávila (Rafão), Grupo Ânima

Escolher uma profissão, ingressar em uma faculdade, conseguir um bom emprego depois de formado e crescer na carreira: essa trajetória ainda faz parte dos sonhos de muitos jovens. Mas, esse percurso está mudando!

Os desafios do ensino na atualidade demandam mais que ferramentas técnicas, sendo que o prazer de aprender e ensinar está profundamente ligado a fatores como auto-conhecimento, felicidade e espiritualidade. É justamente o que nos provoca a refletir Rafael Ávila, mais conhecido (até por ele mesmo) como Rafão, o entrevistado da sexta edição do Inovação em Pauta.

Logo de cara, a primeira ponderação feita por Rafão nos convida a olhar a apresentação profissional tradicional de uma outra forma. Para ele, é mais relevante apresentar-se como marido da Juliana, pai da Mila e, porque não, dos seus cachorros (Pretinho e Aurora), que dar ênfase a títulos que, segundo Rafão “fizeram sentido em outra época mas, cada vez mais não terão tanto significado quanto já tiveram”.

O acesso à informação globalizada vem possibilitando novas formas de ensino e aprendizagem nos últimos anos. Porém, ainda impera um modelo educacional configurado para atender às demandas sociais e econômicas da Revolução Industrial, ao final do século IX.

Com a pandemia, o fator digital e as ferramentas de conexão que já faziam parte do cotidiano foram introduzidas, praticamente do dia para a noite, nas relações entre alunos e professores, expondo desafios e lacunas, entre os quais se destaca a realidade de muitos estudantes que ainda não têm acesso sequer à internet.

Por outro lado, as mudanças trazidas pelo novo coronavírus para o campo da educação também devem ser consideradas no âmbito do mercado de trabalho. As empresas são chamadas a compreender a relevância de valorizar tanto o conhecimento técnico quanto as habilidades socioemocionais dos profissionais.

De fato, vários estudiosos da gestão vêm apresentando trabalhos que analisam as mudanças no modelo organizacional, apontando para uma tendência menos hierárquica e mais humanitária como vetor de transformação neste novo milênio.

Um desses autores é Frederic Laloux. Em seu livro intitulado “Reinventando as Organizações” (2014), ele defende que está em curso a metamorfose para uma nova práxis empresarial, empenhada em tornar o trabalho mais preenchido de significado e em possibilitar o florescimento de talentos e vocações.

Segundo Laloux, apostar na melhoria contínua da organização passa pelo compromisso com uma percepção evolutiva da empresa, que leva em conta a própria evolução das pessoas, com base em três pilares: autogestão, integrabilidade e propósito evolutivo.

E como será que as instituições de ensino estão respondendo à esse chamado evolutivo? Como elas se reinventaram até aqui e como lidaram como as transformações no fazer educacional trazidas pela pandemia?

Na tentativa de esclarecer essas e outras questões, apresentamos, a seguir, algumas das reflexões levantadas por Rafão, que além de pai, é professor Universitário no Uni-BH, professor de Kundalini Yoga, mestre em Estudos Estratégicos e Doutor em Ciência da Informação.

A entrevista na íntegra pode ser conferida no canal do Inovação em Pauta no YouTube, por meio deste link.

Boa leitura!

DE ONDE O ENSINO VEIO E PARA ONDE VAI – As experiências no âmbito da educação e o caminho para o novo normal

Em uma primeira análise do processo educativo, considerando a escolarização e todos os seus aspectos teóricos e práticos, é possível afirmar que pouca coisa mudou nos últimos 100 anos.

Rafão reconhece que diversos especialistas em educação concordam que temos um modelo educacional no final do século IX, professores formados no século XX e alunos forjados no século XXI.

Entretanto, considerando o que observou por cerca de oito anos em escolas inovadoras ao redor do mundo, Rafão acredita que, apesar dessa dissonância, convivem no mundo diversas experiências de fazer educacional, algumas mais sintonizadas às novas práticas de ensinar e aprender, outras ainda se alinhando a essa transformação.

O que a pandemia fez foi justamente enfatizar as diferenças apontadas por Rafão, trazendo à tona os desafios enfrentados pelas instituições de ensino para responder às exigências de proteção da saúde de alunos, professores e todo a comunidade escolar – ao mesmo tempo em que é preciso dar continuidade ao processo de aprendizagem, rumo ao novo normal.

Em um artigo do portal R7 sobre educação pós-pandemia no Brasil, o diretor comercial do Grupo Ânima, Cristovam Ferrara, avalia de forma positiva as mudanças que o novo coronavírus impôs, salientando que elas vieram para ficar. Cada vez mais o online ganhará força, promovendo uma aproximação entre as experiências de ensino presenciais e virtuais, no chamado ensino híbrido.

Ainda na mesma reportagem, Miguel Thompson (diretor acadêmico da Fundação Santillana) salienta que será necessária a criação de políticas públicas que ajudem a reduzir as desigualdades no acesso às ferramentas digitais.

Para Rafão, trata-se de um cenário de reconstrução de certezas, no qual a educação precisa ser considerada, antes de mais nada, como uma relação afetiva, para então assumir seu lugar na racionalização e industrialização humanas.

“O mundo muda de forma cada vez mais rápida, ele é volátil. O aluno que pensa que a educação de hoje pode ser semelhante à de 10 anos atrás está equivocado, da mesma forma que a família que pensa no vestibular tradicional para os filhos daqui a 15 anos”, pondera Rafão.

Nesse sentido, Rafão se considera um privilegiado por ter experimentado no Grupo Ânima diversas propostas inovadoras, que englobam o professor, a grade curricular, o ambiente de ensino e tantos outros fatores.

“Uma série de experiências que refletem não só o mundo como ele é hoje, mas o mundo como a gente gostaria que fosse, claro, enfrentando certas resistências, como em todo processo de inovação”.

Muitas vezes, essas resistências estão, por exemplo, na forma como algumas empresas ainda enxergam os indivíduos, dando importância apenas às hard skills, esquecendo-se das soft skills.

O CHAMADO HOLÍSTICO PARA AS EMPRESAS – Novos fatores que importam na formação profissional do século XXI.

Em um mundo cada vez mais conectado, os negócios tornaram-se, também, mais interligados, dinâmicos e complexos. Dessa forma, não é mais possível atentar apenas para os conhecimentos e habilidades técnicas de um perfil profissional, denominados hard skills. É preciso abranger e promover as habilidades socioemocionais e comportamentais das pessoas, as chamadas soft skills.

Rafão salienta que não se trata de negar a importância das hard skills, mas de retirá-las da centralidade da discussão sobre educação e vida profissional, inserindo os fatores não-cognitivos nesse processo, pensando em um mundo marcado pela volatilidade.

“Precisamos apoiar o desenvolvimento de habilidades socioemocionais como trabalhar em time, organizar e expor ideias, se comunicar bem; nunca foi tão necessário expor nossas ideias com clareza, ser criativo e inovador”, pondera Rafão.

Como bem afirmou Rafão, essa percepção já vem sendo construída desde os anos 1990, não é uma novidade. Um dos autores que fala sobre ela é o estadunidense Peter Senge. Seu livro chamado “A Quinta Disciplina” é um dos mais relevantes no âmbito da administração. Nele, Senge defende que as organizações que alcançam sucesso são “as organizações que aprendem”, aquelas que desenvolvem processos capazes de cultivar nas pessoas a capacidade de comprometerem-se com um processo de aprendizado contínuo e sistêmico.

O autor fala em cinco disciplinas, todas elas relacionadas ao desenvolvimento das soft skills: domínio pessoal, visão compartilhada, modelos mentais, aprendizado em equipe e, a tal quinta disciplina, o pensamento sistêmico.

Segundo Senge, “o pensamento sistêmico torna compreensível o aspecto mais sutil da organização que aprende – a nova forma pela qual os indivíduos se percebem e a seu mundo”.

Considerando os aspectos do seu próprio aprendizado compartilhados por Rafão durante a entrevista, que incluem a espiritualidade e a prática da yoga, é possível perceber que o profissional do século XXI está mais próximo de um perfil voltado para o aprendizado e o desenvolvimento das habilidades socioemocionais, sendo que esse é o perfil da liderança que deve prosperar no futuro.

Nas palavras de Rafão, “uma liderança consciente, que tenha uma conexão muito mais profunda consigo mesmo do que com a realidade”.

Todos esses desafios já estavam postos quando a pandemia chegou sem avisar – embora a comunidade científica mundial já tivesse emitido alertas ao longo das duas últimas décadas sobre os riscos de uma epidemia de alcance global, conforme salienta Rafão.

Assim, as instituições de ensino tiveram de lidar com todas essas questões, somadas à tarefa de adaptar suas atividades às exigências da pandemia. O distanciamento social acertou em cheio o universo da educação. Como tem sido essa aventura até aqui e quais serão os próximos capítulos? Vejamos na conclusão da entrevista de Rafão para o Inovação em Pauta.

O MODELO EDUCACIONAL TRADICIONAL POSTO EM XEQUE – Propensão ao híbrido como diferencial para reduzir impactos da mudança acelerada pela pandemia.

Tão logo a pandemia do novo coronavírus chegou ao Brasil, o Ministério da Educação (MEC) aprovou o emprego do ensino remoto em todas as instituições do país, incluindo as universidades e demais escolas de ensino superior. As instituições públicas tiveram mais dificuldade para manter as atividades no formato virtual, conforme apontou reportagem do portal G1.

Nesse cenário, formaram-se três grupos distintos de instituições de ensino respondendo à pandemia, conforme análise publicada em julho deste ano na revista VejaSP:

●    o primeiro grupo suspendeu totalmente as atividades e cancelou o semestre, provavelmente assumindo a incapacidade de promover o ensino remoto;

●    o segundo grupo aderiu às aulas virtuais sem, contudo, investir na qualidade das ferramentas;

●    e o terceiro grupo, que fez a migração total das atividades do formato presencial para o digital, investindo em tecnologia.

Entre os três grupos citados na reportagem, é possível perceber que a diferença na resposta às demandas da pandemia para o setor educacional está no quanto as instituições já vivenciam o ensino remoto e o ambiente digital de aprendizagem em sua realidade.

Para Rafão, as instituições que viviam o processo híbrido, mesclando presencial e virtual, tiveram, sim, mais facilidade nessa transição. Ele conta que, no Grupo Ânima, esse projeto começou em 2017, no que ele definiu como uma proposta de atuação no espectro, entre os mundos 100% presencial e 100% online.

“Criamos um projeto que reuniu o melhor desses dois pólos, sendo ajustados na sua estrutura curricular e na sua experiência acadêmica. Assim, no dia 18 de março foi decretada a recomendação para home office e desde esse dia a Ânima migrou inteira para o online”.

Rafão enfatiza que a Ânima não era uma instituição de ensino online mas, por ter investido no projeto de educação híbrida ao longo dos últimos anos, estava mais preparada para a transformação – que aconteceu de forma extremamente rápida. Em menos de 15 dias, mais de 140 mil alunos e 5 mil professores passaram a se encontrar exclusivamente no ambiente virtual.

Aqui, é interessante perceber que essa transformação no modelo educacional não começa nem termina com as tecnologias. Trata-se de um processo contínuo, que vem acompanhando o desenvolvimento econômico e social da humanidade e, por isso mesmo, é extremamente sensível aos fatos sociais experimentados ao longo do tempo.

É preciso considerar que, no mundo todo, diferentes batalhas estão sendo travadas pelas instituições de ensino, desde as mais antigas e renomadas quanto as mais jovens e ainda em busca de consolidar sua reputação. Diferenças entre o ensino público e o privado, entre o ensino básico e o superior e, até mesmo, diferenças entre as pessoas que lidam de forma completamente individual com tudo que acontece ao seu redor.

Nesse sentido, Rafão afirma que a pandemia revela a grande desigualdade brasileira. “Quantos alunos brasileiros não têm condições de terminar o ano letivo? E a nossa estrutura precária de internet? Um projeto de nação não pode prescindir que precisamos crescer todos juntos”,

questiona ele.

Mas, embora já seja possível traçar essas e outras questões fundamentais para orientar o caminho do novo normal e a experiência educacional no cenário pós-pandemia, é importante reconhecer que todo esse processo ainda está em curso. Ou seja, é preciso manter o foco no tempo presente, mas sem perder de vista o futuro que se constrói.

De acordo com um estudo feito pela Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (ABMES) sobre o impacto do novo coronavírus na educação superior, mesmo diante da instabilidade, as pessoas pensam em ingressar em uma faculdade e concluir uma graduação. Mais de 60% dos alunos entrevistados na pesquisa afirmaram que darão continuidade aos estudos, mesmo com as dificuldades impostas pela pandemia.

É assim, sem saber o que virá, que os alunos e professores seguirão sua trajetória. A única certeza que se tem, e que Rafão destaca nos momentos finais da sua entrevista, é que a educação, ao menos no Grupo Ânima, não voltará a ser como era.

Uma outra realidade surgirá, “e o que eu espero é que a gente consiga achar um ponto de equilíbrio entre o melhor do online e o offline, do público e o privado, do tradicional e o inovador. Estamos ressignificando o que é importante, o que é urgente, o tempo. A única competição é com a gente mesmo… Inspira, respira, não pira!”.

Para o Inovação em Pauta, é exatamente esse reconhecimento do processo de mudança presente no dia a dia de forma fluida, promovendo a construção de novos paradigmas, que torna a transformação digital mais compreensível e, portanto, motivadora.

Vale a pena conferir a entrevista do Rafael Ávila na íntegra. Visite o nosso canal no YouTube e diga o que você achou desse bate-papo.

Redação: Francis Aquino Fernandes e Thaís Helena, para o canal Inovação em Pauta. Entrevista realizada no youtube em 02/07/2020.

 

SOBRE O GRUPO ÂNIMA

Fundado em 2003, o Grupo Ânima é uma das principais organizações de ensino superior particular do Brasil, presente em sete estados por meio de 15 instituições universitárias que atendem cerca de 145 mil estudantes nas modalidades de graduação e pós-graduação. “Transformar o Brasil pela educação”, esse é o propósito do Grupo Ânima.

Conheça: https://animaeducacao.com.br/

SOBRE O CANAL INOVAÇÃO EM PAUTA

Como o objetivo de desmistificar o conceito de inovação, nasceu o programa Inovação em Pauta, um canal de conteúdo no Youtube que promete informar, inspirar e principalmente apresentar de forma clara e simples como o ecossistema da inovação se movimenta em Minas Gerais e no Brasil.

O programa representa uma imensa oportunidade de se manter atualizado sobre tudo o que é feito e por quem são feitas as inovações mais relevantes no mundo de hoje, o que está acontecendo no Brasil e no mundo, quais as principais tendências e como não ficar de fora dessa transformação digital.

Suas idealizadoras, Alessandra Alkmim e Janayna Bhering são especialistas em tecnologia, inovação e empreendedorismo, com forte atuação no mercado. Francis Aquino é jornalista empresarial e atua fortemente na identificação de oportunidades, divulgação e promoção do capital intelectual brasileiro.

Programação: todas as quintas-feiras, 19horas

Acesse:

https://www.youtube.com/watch?v=rABhCfwjVuk

Facebook e Instagram: @inovacaoempauta

contatoinovacaoempauta@gmail.com

FONTES DO E-BOOK:

Portal R7: “Tecnologia integra o novo normal na educação pós-pandemia”.

https://noticias.r7.com/educacao/tecnologia-integra-o-novo-normal-na-educacao-pos-pandemia-11072020

Revista Galileu: “Teria sido possível prever e evitar a pandemia do novo coronavírus?”.

https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2020/04/teria-sido-possivel-prever-e-evitar-pandemia-do-novo-coronavirus.html

Portal G1: “Continuação dos estudos é essencial para destaque no mercado pós-pandemia”.

https://g1.globo.com/mg/triangulo-mineiro/especial-publicitario/uniube/educacao-superior-em-foco/noticia/2020/06/29/continuacao-dos-estudos-e-essencial-para-destaque-no-mercado-pos-pandemia.ghtml

Veja SP: “Quem vai liderar o futuro do ensino?”.

https://vejasp.abril.com.br/cidades/quem-vai-liderar-o-futuro-do-ensino/

Relatório da esquisa da ABMES “Covid-19 vs. Educação Superior: o que pensam alunos e como sua IES deve se preparar”.

https://abmes.org.br/arquivos/pesquisas/4aonda-coronavirus-28072020.pdf

https://abmes.org.br/noticias/detalhe/3767/mesmo-diante-da-pandemia-pessoas-planejam-ingressar-no-ensino-superior

Livro “Reinventando as organizações”, autor Frederic Laloux (2017, edição brasileira).

Livro “A Quinta Disciplina”, autor Peter Senge (2009, edição brasileira).

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