Você sabe o que é upcycling?

(foto: Lucas Morais/Divulgação)
(foto: Lucas Morais/Divulgação)

Por: Marinella Castro

Até 2024, Paris quer se tornar a capital da moda sustentável e ser a protagonista em uma revolução que pretende pressionar uma das indústrias mais poluentes do mundo a se reinventar. A França aumenta o tom e coloca prazos, mas a busca pela sustentabilidade já atinge grandes e pequenos negócios em vários países do mundo, provocando ondas de consumo consciente. Um desses movimentos é o upcycling. O nome, que ainda não tem tradução para o português, envolve conceito relativamente antigo, mas que começa agora a se tornar mais popular, antenado com a busca por um mundo mais limpo. O upcycling traz materiais ou produtos acabados, roupa, sapato, acessórios novamente para o ciclo “up” da vida, o que significa que a roupa que seria colocada de lado, ganhará novamente valor, tendo sua vida esticada. “Não há nada mais sustentável do que consumir algo que já existe”, diz Gabriela Marcondes Schott, consultora socioambiental de resíduos têxteis e especialista em  reciclagem, ou economia circular e processos de reutilização de materiais na indústria da moda.

Em Belo Horizonte, o conceito upcycling aparece no mundo fashion com a criação de produtos a partir de materiais reaproveitados, pela  customização ou pela febre dos brechós. Dos mais simples até espaços de luxo, online ou com lojas físicas, os brechós trazem a roupa que estava parada no armário de volta para ser consumida como nova por alguém, aumentando a vida útil da peça. No conceito de upcycling a característica físico-química do produto é preservada, explica Gabriela Marcondes (veja a diferença entre upcycling, downcycling e recycling no quadro).  Esse mercado que busca a sustentabilidade e se preocupa em dar uma mãozinha para o planeta inspira empreendedores e ao mesmo tempo o comportamento de um público que antes de consumir está de olho na história da roupa que compra.
O conceito do upcycling foi o que inspirou o nascimento da Reviva Jeans, criado pelas empreendedoras Kátia e Amanda Soares (tia e sobrinha) no fim de 2019. “Queríamos reaproveitar algo que já existe para fazer uma peça nova”, diz Amanda. As sócias escolheram o jeans por ser um produto atemporal e de muita aceitação no mercado.  A  Reviva compra em brechós, jaquetas, shorts e calças e a partir daí customiza as peças, que ganham desenhos originais e coloridos, feitos artesanalmente por um grupo de bordadeiras do bairro Jardim Leblon, no norte de Belo Horizonte. De acordo com Amanda, a ideia é, além de transformar a roupa “incentivar o desenvolvimento da mão de obra local, gerando trabalho e renda para um grupo de mulheres”. A primeira coleção da Reviva Jeans recebeu o nome de Pássaros e já inspira a marca a voar longe. A intenção é unir a beleza das peças com o conceito verde. “É certo que muitos consomem as roupas porque gostam, acham bonito, mas percebo que a preocupação com a sustentabilidade também vem ganhando espaço nessa escolha”,  afirma Amanda.
Dentro de um conceito que aumenta em até 100 vezes a vida da roupa, a Bump Box foi criada pelas sócias Cintia Cavalli e Juliana Semino, no modelo 100% online. Lançada em 2017 a marca tem como principal foco o mercado para grávidas. “O tempo da gestação pode ser curto para criar um guarda-roupa, mas é muito longo para ficar sem algo que sirva”, diz Cintia. A Bump Box inovou ao trazer para a moda gestante uma plataforma circular que funciona assim:  a cada novo ciclo, que pode ser de 30 dias, três meses ou seis meses, a cliente devolve as roupas que usou por um período determinado e recebe as novas peças que escolheu, evitando que as roupas sejam abandonadas após períodos específicos da gestação. O objetivo é usar as peças e não ser dona delas. As roupas são desenhadas e produzidas pela marca, com materiais confortáveis em pequenos ateliês. A ideia, completa Cintia, é proporcionar às clientes da marca roupas que têm um período determinado de uso e, ao mesmo tempo, fazer com que o produto circule e volte para o ciclo “up” da vida.
O desejo de trabalhar com o conceito do upcycling também foi o que motivou o negócio criado pela designer Julia Lage. Ela já havia desenvolvido projeto com cooperativa de catadores de papel e com a produção de arte a partir de material reciclado. Em 2012, criou a marca A Passeio. Sua coleção Joias Raras desenvolve brincos e colares a partir de retalhos e embalagens longa vida. Os desenhos são feitos sobre os pedaços de tecidos com o uso de pirógrafo, uma caneta de fogo. As coleções contam histórias famosas como a do Pequeno Príncipe e também retratam temas da literatura brasileira, como o cordel. “Os materiais são renovados e inseridos novamente no ciclo do consumo”, diz Julia. Todas as peças são feitas de modo 100% artesanal, uma a uma, com calma e paciência.  Além dos brincos e colares, a marca também criou coleção de objetos de decoração, seguindo o mesmo conceito e investe agora em roupas, que seguem o princípio “slow fashion”, produzidas artesanalmente pela mão de obra local.
Todos esses conceitos, explica Gabriela Marcondes, são fundamentais dentro de um mundo mais verde e sustentável para as próximas gerações. E para além dos negócios, o upcycling, segundo a especialista, chega aos armários provocando uma mudança de comportamento. Isso porque, de certa forma, o movimento “fashion revolution”, que questiona a indústria da moda, também traz reflexões para quem a movimenta, os consumidores. Ao invés de esquecer a roupa ou o tênis em um canto do armário, muitos fazem sua própria customização, transformam, resignificam e voltam a usar a peça. É o que vem sendo chamado de upcycling individual. Então, já deu uma boa olhada no poder de renovação do seu armário? Quantos anos mais ele consegue viver?
Entenda diferença entre upcycling, recycling e downcycling
  • Upcycling: consiste em reutilizar um item, trazendo-o de volta ao ciclo da vida, geralmente com maior valor que o produto original, que seria descartado. Um exemplo são as customizações de peças do vestuário
  • Recycling: na reciclagem, itens são reduzidos a materiais, usados para produzir algo totalmente novo. São exemplos as fibras da garrafa pet transformadas em matéria prima para a confecção de cobertores
  • Downcycling: reutilização de um produto transformando-o em algo que tem menor valor que o original. Geralmente há uma perda de qualidade. Um exemplo é o papel branco que se transforma em papeis marrons de menor qualidade, tendo modificada sua cor e textura

Revista Encontro | 28 de outubro de 2020

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