A vocação estruturante da Fiat em Minas Gerais

Por: Diário do Comércio

Marcio Lima*

A instalação da Fiat Automóveis, hoje Fiat Chrysler Automóveis (FCA), em Minas Gerais, há 44 anos, está estreitamente ligada a um grande esforço de planejamento empreendido a partir da década de 1960 por grandes cabeças mineiras. Ao longo de sua riquíssima história de 300 anos, que estamos celebrando, Minas protagonizou ciclos econômicos importantíssimos, como do ouro e do café, mas por diversas razões não acompanhou o ciclo de industrialização que floresceu no século XX.

A economia do Estado seguiu sustentada pela produção agropecuária e pela cadeia do ferro e aço. Faltavam no tecido econômico as indústrias capazes de transformar os bens primários em bens de consumo de maior valor agregado.

As raízes históricas deste processo foram claramente analisadas em um trabalho de grande valor, denominado “Diagnóstico da Economia Mineira”, um documento histórico divulgado em 1968 pelo Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG). Dele participaram a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), a Faculdade de Ciências Econômicas (Face/UFMG), a Cemig e um grupo bem preparado de intelectuais e visionários da época, que constituíram em torno do debate desenvolvimentista uma verdadeira escola de planejamento econômico, liderada pelos professores Fernando Roquete Reis, Élcio Costa Couto e Álvaro Costa Santiago.

Este esforço de planejamento buscou entender claramente a estrutura produtiva existente, suas limitações e potencialidades latentes. E foi além: além de fazer o diagnóstico, indicava o remédio. Superar as limitações que travavam a industrialização de Minas era uma meta do governo Israel Pinheiro (1966-1971), durante o qual se produziu o detalhado diagnóstico.

Uma das estratégias para o desenvolvimento industrial era a atração de indústrias estruturantes, capazes de organizar cadeias de produção e agregar valor às matérias-primas e insumos produzidos em Minas. A mobilização para trazer empresas estrangeiras identificadas como capazes de reduzir ou eliminar as lacunas nas cadeias produtivas locais continuou no governo Rondon Pacheco (1971 e 1975), que conduziu as negociações com a italiana Fiat SpA.

A associação Comercial de Minas (hoje Associação Comercial e Empresarial de Minas), então presidida pelo empresário Adolfo Neves Martins da Costa, foi protagonista nestes contatos, que culminaram com a assinatura do “Acordo de Comunhão de Interesses” firmado entre o governo mineiro e a Fiat SpA. O primeiro presidente na nova empresa a se instalar em Betim foi exatamente o engenheiro Adolfo Neves Martins da Costa.

O setor automotivo tem como característica ser de cadeia longa e de demanda multissetorial. Isto é: além do ferro e aço, a produção de automóveis demanda insumos e componentes elétricos, eletrônicos, de borracha, plásticos, vidro, químicos, entre outros setores. A produção de automóveis também dinamiza outras indústrias, como a de financiamentos, seguros, combustíveis, obras viárias, além de injetar recursos na economia pelo efeito do pagamento de salários, geração de impostos, estímulo ao comércio e serviços. Trata-se também de um setor que gera e demanda conhecimento para a formação de mão de obra especializada e atração de novas tecnologias, estimulando a educação e o desenvolvimento social em vários aspectos.

Decorridos quase 45 anos do início das operações da Fiat em Betim, em 9 de julho de 1976, é possível colocar em perspectiva seus efeitos sobre a economia mineira. Desde que iniciou operações em Minas, a Fiat evoluiu muito. A empresa, de origem italiana, comprou o grupo Chrysler, dos Estados Unidos, e o incorporou em 2014, dando origem à Fiat Chrysler Automobiles (FCA), em cujo portfólio se destacam marcas como Fiat, Alfa Romeo, Maserati, Jeep, Ram, Dodge e Chrysler.

A fábrica de Betim passou por seguidas ampliações de capacidade produtiva e por um processo ininterrupto de modernização. Hoje, é uma das maiores fábricas de automóveis do mundo.  Novos centros de pesquisa e desenvolvimento foram instalados, como o Design Center Latam, o Safety Center, Sim Center, Virtual Room, Hub FCA e outras. Estas novas áreas tornaram a planta da Betim uma unidade sofisticada de projeto, desenvolvimento, testes e produção de veículos, que detém 100% do conhecimento e competências para desenvolver novos modelos. Grandes sucessos de vendas e de exportação, como os Fiat Strada, Toro e Argo, nasceram e tomaram forma em Betim.

Ao longo dos anos, o processo de “mineirização” atraiu para o entorno da fábrica cerca de 120 fornecedores, formando um parque industrial sólido, o segundo polo automotivo do Brasil e o maior centro de produção nacional de motores e transmissões. Até mesmo outras montadoras se instalaram neste novo ambiente industrial. Dezenas de milhares de empregos de qualidade foram gerados neste processo.

Essa é uma história que ainda está sendo escrita e que terá novos capítulos importantes em 2021. Uma nova família mundial de motores turbo começa a ser produzida no próximo ano em Betim, ao mesmo tempo em que a Fiat entrará no segmento de SUVs. A planta de Betim, que é a sede de fato e de direito do grupo na América Latina, se prepara para responder aos futuros desafios da mobilidade sustentável.

*Diretor de Assuntos Jurídicos e Data Privacy Officer da Fiat Chrysler Automóveis (FCA)

Jornal Diário do Comércio | 15 de dezembro 

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