Combate rigoroso à pandemia pode melhorar economia, sugerem dados

Tempo mostrou que deter vírus ou crescer era falso dilema; medidas sanitárias embasam retomada

Érica Fraga (Folha de S. PAULO)

A eclosão da pandemia do coronavírus nos primeiros meses de 2020 levou especialistas a traçar dois prognósticos sombrios: o mundo viveria uma catástrofe humanitária e um colapso econômico. Ambas as expectativas se confirmaram.

Desde o início da crise, mais de 2,5 milhões de mortes foram registradas até sexta-feira (26), segundo a Universidade Johns Hopkins.

A projeção mais recente do Banco Mundial indica uma queda de 4,3% no PIB (Produto Interno Bruto) global no ano passado. O resultado só não é pior do que os computados durante as duas guerras mundiais e a Grande Depressão, entre 1930 e 1932.

Dados recentes mostram que alguns países com baixa mortalidade pela Covid-19

preservam também atividade produtiva

Noruega, Coreia do Sul e China, que têm taxas de morte pelo coronavírus por 100 mil habitantes de, respectivamente, 11,4; 3,1 e 0,4, registraram crescimento de suas produções industriais de 7,3%, 0,3% e 2,8% em 2020, segundo dados da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico).

Esforço para conter pandemia pode garantir melhor desempenho econômico

Dados recentes mostram que alguns países com baixa mortalidade pela Covid-19

preservam também atividade produtiva

Mortes por 100 mil habitantes           
Produção industrial em 2020, em %**

*Número acumulado do início da pandemia até 24/02/2021 | **Variação em relação a 2019 Fonte: Johns Hopkins University; OCDE; institutos oficiais de estatística dos países

Bélgica, Itália e Brasil, com taxas de mortalidade pela Covid-19 de, respectivamente, 192,2; 182,8 e 118,7, computaram contrações de 3,6%, 8,4% e 4,4% no mesmo indicador.

Haverá por trás desses poucos exemplos o que cientistas chamam de causalidade, sendo o bom resultado econômico em um ano de colapso mundial resultado da habilidade dos países de conter a pandemia?

Ainda é cedo para responder a essa pergunta por uma série de motivos, como a própria duração —mais longa do que o esperado— da pandemia e a falta de indicadores econômicos mais completos. Muitos países, como o Brasil, ainda nem divulgaram o PIB de 2020.

Mas especialistas dizem que evidências anedóticas indicam que pode existir uma relação causal entre os dois fatos.

A revista britânica The Economist publicou em janeiro reportagem sobre o crescimento de 2,3% do PIB chinês em 2020. Embora esse tenha sido o pior desempenho do país desde 1976, o número positivo, definitivamente, não era esperado por analistas no início da crise e deverá ser um dos poucos crescimentos registrados no mundo em 2020.

China cria hospital especial para lidar com coronavírus

Mas é difícil não atribuir pelo menos parte do desempenho à menor incerteza associada à contenção do contágio, graças a ações rápidas tomadas pelo governo chinês, como duras políticas de distanciamento social e um planejamento rigoroso de como ele seria gradualmente flexibilizado.

Especialistas também têm notado a diferença de desempenho entre a economia alemã e a de outros europeus.

Embora esteja longe das menores taxas de mortalidade pelo coronavírus, a Alemanha tampouco se aproxima dos piores casos. Com 83 mortes por 100 mil habitantes, o indicador da nação é inferior à metade dos 192,2 óbitos por 100 mil pessoas na Bélgica.

A produção industrial da Alemanha despencou 9,9% em 2020. Além disso, o PIB do país (maior economia europeia) recuou 5%. Mas, segundo estimativas oficiais, a contração alemã deverá ser a metade da amargada por França e Itália, que têm taxas de mortalidade pela Covid-19 bem mais elevadas.

Em entrevista recente à Folha, o economista Branko Milanovic, um dos maiores especialistas do mundo em desigualdade de renda, ressaltou que ainda faltam explicações para a enorme diferença entre as taxas de mortalidade pela Covid-19 ao redor do mundo.

“Se você olha a taxa de morte por milhão de pessoas, não estamos falando de diferenças que são 1 para 2 ou 1 para três, mas 1 para 200. Então, há muita explicação necessária”, diz ele.

Na avaliação de Milanovic, os países que foram capazes de convencer suas populações a seguir o distanciamento social nos inícios dos ciclos de piora da epidemia e combinaram essa política com medidas como ampla testagem e mapeamento dos contatos dos infectados são os que têm preservado mais vidas.

E evidências crescentes indicam que, embora tenham custos elevados, essas medidas não condenam as economias a um colapso e que seu efeito pode ser até um desempenho relativo melhor em relação a nações com dificuldade em conter a disseminação do vírus, como o Brasil.

Um temor bastante disseminado no início da pandemia era que políticas rigorosas de distanciamento destruiriam a atividade produtiva. Naquele momento, um grupo de pesquisadores publicou estudo que indicava que esse medo era infundado.

Ao fazer uma comparação rigorosa das diferentes reações de políticas públicas à disseminação da gripe espanhola em 1918, os economistas mostraram que as localidades que reagiram mais prontamente tiveram uma retomada econômica mais vigorosa.

Um trabalho recém-publicado com foco no Brasil buscou investigar a mesma questão, mas usou a atual pandemia como estudo de caso.

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