Diversidade e inclusão: muito além do discurso

Mapeamento inédito de O TEMPO mostra que 100% das empresas têm ações, mas só metade tem metas

Cartaz colorido no Dia do Orgulho LGBTQIA+, rodada de conversa sobre racismo no Dia da Consciência Negra, palestras e rosas em 8 de Março. Apesar de bem-vindas, ações isoladas não fazem de uma empresa um ambiente diverso. O mundo corporativo já percebeu que precisa ir além. Grupos de afinidades têm sido criados, lideranças estão sendo capacitadas, e muitas metas têm sido traçadas para aumentar a presença de mulheres, negros, pessoas com deficiência, lésbicas, gays, transexuais e outros grupos com acesso minoritário. O movimento mostra que a jornada começou, mas o caminho é longo: 71% das empresas ainda não possuem política de diversidade e inclusão, segundo levantamento feito pelo Mais Diversidade, referência na América Latina para implantação de diretrizes e programas empresariais ligados à pauta. 

Para entender a distância entre o discurso e a prática, a editoria Mais Conteúdo, de O TEMPO, fez um mapeamento inédito e ouviu 56 empresas com atuação em Minas Gerais, dos ramos de varejo, serviços, logística, finanças, tecnologia, agronegócio, energia, saneamento, educação, farmacêutico e hospitalar, além das indústrias de alimentação, construção, mineração, siderurgia, têxtil e automotiva. Das 51 que responderam à pesquisa, todas têm alguma ação voltada para diversidade e inclusão. Quando a pergunta é sobre a presença de algum programa, com planos e metas, o percentual cai para 51%. Já no caso de ter uma gerência específica para cuidar do tema, apenas 17,6% responderam que sim.  

A fundadora da plataforma camaleao.co, que conecta talentos LGBTQIA+ com oportunidades de emprego, Maira Reis, explica que muitas empresas falam que investem em diversidade, mas, na verdade, só fazem algumas iniciativas. “Neste momento, as empresas se tocaram da importância da diversidade e inclusão, mas ainda falta investimento e entender que isso é uma estratégia. O programa de diversidade precisa ter metas e métricas, é uma estratégia, com um suporte maior. Mudar a logo nas redes sociais no mês da diversidade não é uma estratégia, é uma iniciativa”, diz. 

Há dois anos, a Belgo Bekaert já tinha implantado um comitê de diversidade. Agora, há pouco mais de dois meses, a líder no mercado brasileiro de arames criou uma gerência de diversidade, inclusão e responsabilidade social, comandada por uma mulher. Formada em comércio exterior, Luciana Macedo, 39, trabalha na multinacional há 10 anos. “É mais comum vermos ações coordenadas por voluntários, que também têm seus trabalhos. Então, quando temos uma área dedicada, com uma pessoa traçando estratégias e visando a metas, tudo fica mais sustentável. Diversidade e inclusão não é moda. É uma tendência que veio para ficar, e nosso compromisso não é levantar uma bandeira, a gente quer ações efetivas. Ter uma gerência dedicada é fundamental para que a gente consiga colocar isso em prática”, destaca Luciana.  

Branca e hétero, Luciana tem plena consciência de que só quem vive experiências de preconceito conhece a sensação. Mas sabe bem que a transformação cultural é um compromisso coletivo. “O primeiro passo para qualquer empresa é dar foco na educação para sensibilizar os empregados para a pauta. Muitas vezes, as pessoas não se dão conta dos vieses inconscientes que elas possuem, não se dão conta que estão praticando atitudes machistas, racistas e homofóbicas. A gente precisa impactar essas pessoas para que elas comecem a se questionar, para que comecem a se desconstruir e enxergar o quanto essa pauta é importante, mas que depende de todos nós”, afirma Luciana. 

Para Ricardo Sales, fundador da Mais Diversidade, o maior desafio é a falta de planejamento. “Dentro de uma empresa, temos planejamento para vendas, jurídico, RH e praticamente tudo. Com diversidade e inclusão não pode ser diferente”, ressalta. “É importante fazer eventos e ações, mas é preciso ter clareza de quais são os objetivos em relação à pauta e ter um olhar particular para a agenda, de acordo com a cultura e o ambiente de negócio. Investimento financeiro é importante, mas também é preciso investir em tempo e em pessoas engajadas com as demandas da sociedade. Isso tem relação direta com o resultado das organizações, pois empresas diversas têm maiores taxas de engajamento, produtividade e inovação”, destaca Sales.  

NÚMEROS 

  • 51% das empresas com atuação em Minas Gerais possuem programa de diversidade e inclusão 
  • 17,6% têm uma gerência ou setor exclusivo para traçar metas e dar suporte 

Por Izabela Ferreira Alves, Queila Ariadne, Rafael Rocha e Tatiana Lagôa / O Tempo 

Compartilhe

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no email

Posts recentes

Siga a ACMinas

Assine nossa Newsletter

Receba nossa novidades em primeira mão por email.