Em shopping popular, 35% dos boxes estão vagos

*Por Cibelle Bouças

Elias Tergilene, do Grupo Uai: “A segunda onda veio quando o caixa dos empreendedores já estava zerado” — Foto: Maria Tereza Correia/Valor

As restrições impostas na maioria dos Estados para conter a pandemia de covid-19 afetaram os shopping centers, que registraram queda de 33,2% nas vendas em 2020 e de 24% no primeiro bimestre deste ano, segundo a Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce). No comércio popular, a situação é mais crítica, avalia Elias Tergilene, presidente da Fundação Doimo. A entidade é dona do Grupo UAI, que administra a Feira da Madrugada, em São Paulo, UAI Shopping Centro e UAI Shopping O Ponto, em Belo Horizonte, UAI Shopping São José, em Manaus, e UAI Shopping Agamenon, em Toritama (PE).

“Dos 6 mil empreendedores que atuam nos nossos shoppings e na Feira da Madrugada, 35% já abandonaram seus boxes e não vão voltar. Do restante, metade está em sérias dificuldades financeiras”, afirmou Tergilene. O executivo disse que já havia isentado os empreendedores do aluguel, mas agora eles não conseguem pagar a taxa de condomínio, que é o rateio das contas de água e energia.

De acordo com o executivo, a receita de aluguéis, que em 2019 foi de R$ 60 milhões, caiu 70% no ano passado. “Vamos reabrir os shoppings com metade da capacidade”, disse Tergilene. Na visão do executivo, esses empreendedores que abandonaram seus boxes provavelmente voltarão a trabalhar nas ruas como camelôs. “São pequenos empreendedores que trabalham para sustentar a família. Teve gente que vendeu o carro, se endividou, ficou com o nome no SPC, com o registro no [Cadastro Informativo de Créditos não Quitados do Setor Público Federal] Cadin. Não consegue crédito para reabrir a loja”, afirmou Tergilene.

O executivo disse que o cenário se repete em todos os shoppings populares e na Feira da Madrugada. Na Feira da Madrugada, mais de um terço dos 6 mil empreendedores abandonaram seus boxes. O mesmo ocorreu em Belo Horizonte, onde havia 1.500 empreendedores; em Pernambuco, que reunia 1.600; Feira de Santana, que tinha 1.800; e Manaus, que tinha 300 empreendedores.

“No ano passado, muitos ainda tinham fluxo de caixa. E teve o auxílio do governo, o que sustentou o consumo. A segunda onda veio quando o caixa já estava zerado e não teve auxílio. Sem auxílio não tem consumo”, disse Tergilene. O presidente da Fundação Doimo disse que em torno de 30% dos empreendedores ainda têm capital de giro para sobreviver. Esses empreendedores trabalham com produtos menos afetados pela pandemia, como alimentos in natura.

“Esse empreendedor não tem base financeira nem suporte familiar para sobreviver sem suas vendas. Estar em um shopping popular só se justifica se gerar venda. Minha leitura é que esse empreendedor vai para a rua, para o Facebook, para o WhatsApp para vender. Quando a situação melhorar ele volta para o shopping”, avalia Carlos Arruda, professor e gerente executivo do Núcleo de Inovação e Empreendedorismo da Fundação Dom Cabral.

A maioria dos empreendedores desses centro populares de comércio trabalham com vestuário, calçados e acessórios. Edmundo Lima, diretor executivo da Associação Brasileira do Varejo Têxtil (Abvtex), disse que, antes da pandemia, a informalidade respondia por 30% a 35% do varejo de moda no país. Atualmente, esse índice está entre 40% e 45%.

“Dá para ver pelas vendas nas redes sociais, nos blogs, no WhatsApp. O fechamento dos shoppings populares também tem feito empreendedores voltarem para a rua. É um cenário com efeitos danosos para a economia como um todo”, afirmou Lima. A Abvtex representa 26 empresas de moda, incluindo Renner, C&A, Riachuelo, Marisa, Pernambucanas, Cia. Hering e Zara. Recentemente, a Abvtex fez uma parceria com o Sebrae para fomentar negócios na área de moda em dez Estados.

José Anchieta, presidente da Associação Comercial e Empresarial de Minas (ACMinas), disse que não há estatísticas sobre o comércio de ambulantes na capital mineira, mas é possível observar um aumento desses vendedores na pandemia. “Infelizmente esse comerciante que estava no shopping popular está sendo penalizado na pandemia, porque os shoppings fecharam. E aí num gesto de desespero ele volta para a rua e acaba criando problema para outros lojistas e para a mobilidade urbana. É uma pena, teremos que reorganizar a cidade de novo”, avaliou.

Fábio Pina, assessor econômico da FecomercioSP, considerou que parte desses empreendedores que saíram dos shoppings populares podem estar investindo em outra atividade, como entregador, motorista de aplicativo, em cozinhas dedicadas a atender aplicativos de entrega.

“A pandemia acelerou a adoção de novas tecnologias e isso inseriu mais pessoas no trabalho remoto”, acrescentou Pina. Ele observou que os comportamentos de consumo mudaram e o mercado de trabalho também. “É difícil dizer que todos que saíram do shopping popular vão para a rua trabalhar como ambulantes”, observou.

Leia mais: Valor Econômico|Empresas| 26/04/2021

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