Engenheiros e empresários buscam saídas contra enchentes em Belo Horizonte

Seja na cidade ou no campo, a época das chuvas é sempre muito bem-vinda. No campo, é quando se faz o plantio da nova safra; nas cidades, é quando o calorão dá lugar a uma temperatura mais amena; é quando, nas praças, os gramados trocam de cor – o amarelado da grama, sofrida pela ausência das chuvas, é substituído por um verde intenso. No campo, a situação não mudou muito. Porém, nas cidades, a chegada das chuvas passou a ser também o prenúncio de tragédias cada vez mais frequentes.

Em Belo Horizonte, que o digam, por exemplo, os moradores e comerciantes da região do córrego do Vilarinho, em Venda Nova. Ou, no extremo oposto da Capital, os moradores e comerciantes estabelecidos próximos à avenida Teresa Cristina, na região Oeste. Nesse dois pontos da cidade, a chegada da estação chuvosa tem sido marcada pela a rotina das casas alagadas, dos móveis perdidos; para os comerciantes, é sinal de prejuízo pela perda de estoques. Foi assim em 2020 e tem sido nas chuvas deste ano.

Para discutir os estragos causados pelas chuvas nos últimos anos e formas de se minimizar, ou solucionar, o problema, a Sociedade Mineira de Engenheiros (SME), em parceria com a Associação Comercial de Minas (ACMinas), irá realizar, em março, o seminário “A Engenharia na Gestão das Enchentes Urbanas”. O objetivo, segundo a coordenadora do evento, a engenheira Patrícia Boson, é desfazer o mito de que a tragédia das chuvas na cidade é culpa da natureza.

Negligência -Com o evento, pretende-se também buscar esclarecer a população sobre as reais causas do problema, que, segundo ela, passam pela negligência do poder público em relação à drenagem urbana, serviço que, como lembra Patrícia Boson, integra o Marco Regulatório do Saneamento, ao lado do fornecimento de água e da coleta e destinação correta do lixo e do esgoto. “A culpa não é da chuva. Nem mesmo dos impactados por ela, que na maioria dos casos não precisam, pela localização de suas propriedades, ser condenados às perdas recorrentes”, afirma Patrícia Boson.

“O problema é que ninguém percebe ou trata a drenagem urbana com a mesma urgência, seriedade e técnica que se exige. Aliás, poucos se lembram que se trata de um serviço vital para os que optam por morar em cidades, especialmente os grandes centros urbanos”, afirma Patrícia Boson, que integra a Comissão Técnica de Recursos Hídricos da SME.

Também em busca de uma solução para a tragédia das chuvas em Belo Horizonte, a vereadora Fernanda Altoé (Novo) criou, na Câmara Municipal de Belo Horizonte, a Comissão Especial de Drenagem Urbana, cuja primeira reunião ocorreu na sexta-feira da semana passada. A exemplo de Patrícia Boson, ela chama a atenção para a necessidade, por parte do poder público, de um cuidado maior com a drenagem urbana. “No saneamento, é um assunto relevante, mas esquecido, e que sempre aparece com destaque na época das chuvas”, afirma Fernanda Altoé, que participará do evento da SME como debatedora.

O cenário ideal, segundo ela, é o da cidade esponja, em que a água, na época das chuvas, é absorvida sem traumas pelos seus canais de escoamento, a exemplo do que ocorre em New York, Berlim e Pequim, apenas para citar algumas cidades. Com a comissão, ela espera formar um grupo multidisciplinar que, ao final de seus trabalhos, encaminhe as soluções com esse objetivo.

Áreas de escape – A engenheira Márcia Maria Guimarães, professora da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), afirma que a ocorrência de fortes enchentes ano passado e esse ano é um sinal de que esta é uma realidade da qual não se pode fugir muito, já que as áreas de escape natural das chuvas – as margens dos cursos d’água – foram todas ocupadas. O que pode ser feito, de acordo com Márcia Guimarães, além de obras de engenharia, é a melhor gestão das previsões hidrológicas, de tal forma que a população possa ser informada a tempo de se precaver.

Hoje, segundo ela, sabe-se muito bem que uma chuva de 50 milímetros durante uma hora no alto da bacia do Arrudas irá causar grandes estragos pela cidade. Nesse sentido, o que é preciso, segundo ela, é que essa informação chegue ao cidadão de forma automatizada e no menor tempo possível, para que as providências possam ser tomadas rapidamente. “Informação para isso é o que não falta”, afirma Márcia Guimarães, que do ponto de vista de obras físicas de engenharia, considera também importante a construção de bacias de contenção, que acumulariam a água de chuva em excesso e a liberaria aos poucos, aumentando o seu tempo de concentração.

Obras -Para as enchentes na região do Córrego do Vilarinho, em Venda Nova, a Prefeitura irá construir dois grandes reservatórios subterrâneos, com capacidade de 115 milhões de litros cada, totalizando 230 milhões de litros. O anúncio do consórcio das empresas de engenharia que fará a obra, liderado pela Conata Engenharia, foi feito na última sexta-feira, 12, pelo prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil. A expectativa é de que o contrato seja assinado em um mês e as obras finalizadas até meados de 2024. Quando do anúncio do consórcio vencedor, o prefeito afirmou que as obras que estavam sendo contratadas deveriam ter sido feitas há 30 anos. “Nós esperamos que sejam a solução”, afirmou Alexandre Kalil. (Conteúdo produzido pela SME)

Inscrições abertas
O seminário “A engenharia na gestão das enchentes urbanas” é uma promoção da SME e da ACMinas. No primeiro painel, o palestrante será o engenheiro e hidrólogo Sérgio Menin Teixeira de Souza, que falará sobre “A engenharia na gestão das enchentes urbanas”.

No segundo painel, Márcia Guimarães falará sobre as “Características dos eventos pluviométricos de janeiro de 2020”. No terceiro painel, o engenheiro Márcio Cicarelli Pinheiro apresentará o “Diagnóstico da ocorrência de cheias na Região Metropolitana de Belo Horizonte e possíveis medidas de mitigação”. O evento será no dia 10 de março, de 13h às 17h30. A abertura será feita pela presidente da SME, Virgínia Campos, e pelo presidente da ACMinas, José de Anchieta. O seminário “A engenharia na gestão das enchentes urbanas” será realizado pela internet.

Repetição de enchentes na Capital preocupa ACMinas
A repetição de enchentes na Capital preocupa a Associação Comercial de Minas (ACMinas), que cobra do poder público medidas que minimizem o impacto das chuvas, como a construção de bacias de detenção para que não ocorra sobrecarga nos córregos.

“As medidas de retenção de água devem ser aplicadas de modo eficiente, tornando áreas das cidades verdadeiras bacias de detenção e também ‘esponjas’, para permitir a penetração da água da chuva, evitando-se as inundações”, afirmou o presidente do Conselho Empresarial de Sustentabilidade da ACMinas, Cleinis de Faria.

Além das bacias de detenção, ele defende outras medidas, como a implantação de pisos drenantes e de telhados verdes, que, no seu conjunto, também ajudariam a reter água.
O diretor da ACMinas afirma que o poder público dispõe de um conjunto de séries histórias de dados pluviométricos que, por si só, são suficientes para se traçar uma radiografia da drenagem urbana em Belo Horizonte. O que é preciso, ressalta Cleinis de Faria, é que tais dados sejam utilizados na implantação de um sistema integrado de informação que faça com que os alertas de inundação cheguem à população que seria afetada de forma ágil e a tempo de permitir que possa adotar medidas para minimizar o impacto das chuvas previstas.

Com o seminário, ele espera possam ser identificadas informações, tecnologias e propostas de engenharia e de política pública que sejam capazes de indicar um caminho para se reverter a situação. “As inundações, além demonstrar que as intervenções realizadas no passado são insustentáveis, ocasionam prejuízos materiais e emocionais terríveis. Temos que conceber soluções em uma realidade que é brutal e sedimentada, que se agrava a cada ano em face da dinâmica das cidades, especialmente na impermeabilização do solo e na atrofia dos sistemas de drenagens urbanas”, ressaltou o presidente do Conselho Empresarial de Sustentabilidade da ACMinas.

Fonte: Diário do Comércio

 

 

 

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