Estrada Real: caminhos combinam natureza com roteiros histórico-culturais

Procura pelos percursos cresceu nos últimos meses. IER vai lançar aplicativo e, com recursos da Vale, recuperar os marcos

 

Por PAULO CAMPOS | O Tempo

Um site e-commerce, um aplicativo e recursos da Vale para recuperação de marcos e caminhos são as ações propostas neste ano pelo Instituto Estrada Real (IER) para dar visibilidade ao percurso, um dos mais bem-sucedidos projetos de marketing turístico de Minas, que está sem injeção de verba desde 2017. Percorridos por muitos turistas nestes tempos de pandemia, os caminhos combinam roteiros histórico-culturais com imersão na natureza e servem como uma boa terapia para quem não suporta mais o confinamento. 

A maior rota turística de Minas surgiu em meados do século XVIII, quando a Coroa portuguesa oficializou os caminhos para o trânsito de ouro e diamante no Império até os portos do Rio de Janeiro e Paraty. As trilhas, batizadas de Estrada Real, perfazem hoje um total de 1.630 km, todas tendo como ponto de convergência Ouro Preto, a antiga Vila Rica.  

Em 2001, a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) criou o Projeto Estrada Real para estimular o turismo e preservar os antigos caminhos. Eles foram, então, sinalizados com marcos numerados. Dois anos antes havia sido criado o Instituto Estrada Real (IER) para promover os percursos e fomentar o turismo nas comunidades atravessadas pelas rotas.

No ar, a plataforma e-commerce fazendinha.me/IER já estimula a aproximação de produtores hortifrutigranjeiros da Estrada Real e consumidores. A proposta agora é incentivar o cadastramento de microempresários e ampliar o comércio em outros segmentos. Um dos objetivos do instituto, principalmente agora na pandemia, é ajudar as comunidades a ajudar no desenvolvimento da economia local.

 

Pacote

Atualmente, a operadora mineira Oikos Travel oferece um pacote para conhecer o Caminho dos Diamantes, com saídas aos domingos e pernoites em São Gonçalo do Rio das Pedras, Conceição do Mato Dentro, Cabeça do Boi, distrito de Itambé do Mato Dentro, e Caraça. O roteiro de sete noites, em veículo 4×4 confortável, é limitado a seis pessoas e custa a partir de R$ 3.920, incluindo as refeições.

“Quem procura o pacote são pessoas que já rodaram todo o Brasil e buscam novas experiências. Na maioria, mulheres na faixa de 45 a 60 anos que estão viajando sozinhas”, conta Felipe Rodrigues Bezerra, proprietário da Oikos Travel.

“Refiz o caminho de bicicleta em setembro do ano passado, 40 anos depois, e fiquei abismado com seu potencial. Montei um roteiro exclusivo, de padrão mais alto, para mostrar o Caminho dos Diamantes da maneira mais autêntica para o visitante”, conta Bezerra.

O roteiro faz exatamente o percurso sinalizado pelo Instituto Estrada Real, marco por marco, porém com escapadas estratégicas, que ele define como “experiências”, para conhecer atrativos da região, como o vilarejo de Cabeça de Boi, a cachoeira do Tabuleiro – atualmente fechada e substituída por outra atração – e o Santuário do Caraça.

Minas autêntica

Felipe Bezerra – que precisou reinventar os negócios na pandemia – disse que a procura pelo roteiro se multiplicou. “A cada final de semana, quando abro meu e-mail, são 48 novas cotações. Está dando muito certo”, afirma. Segundo ele, percorrer a Estrada Real é uma forma de conhecer uma Minas autêntica, rústica.

“É uma viagem com pegada comunitária, de contato com a doninha que produz artesanato com sempre-viva, da quituteira que faz seu biscoito, do garimpeiro que exerce no ofício no rio”, afirma. O percurso, plural, também passa pelo distrito de Bento Rodrigues, destruído pela barragem de Fundão, em 2015.

Marcos

Outra maneira de percorrer os caminhos é por conta própria, baixando no site do IER mapas, planilhas e informações detalhadas dos percursos. Até outubro, o instituto pretende disponibilizar um aplicativo georreferenciado, com informações completas dos trajetos. A plataforma também terá parceria do Programa Educacional de Resistência às Drogas (Proerd) para reforçar a segurança dos visitantes.

Segundo Daniel Junqueira, diretor-executivo do Instituto Estrada Real (IER), desde 2017 os recursos para a Estrada Real se esgotaram. Mais recentemente, recursos do Instituto Cultural Vale, que patrocina o IER, permitirá a recuperação de marcos e caminhos. 

Os marcos, que estão espalhados por vários pontos da Estrada Real, não são apenas decorativos. geralmente, eles estão localizados em bifurcações ou pontos estratégicos ao longo dos caminhos para orientar o turista. Sua posição direciona para o lado correto que o caminhante deve seguir para continuar o percurso.

Dos cerca de 1.800 marcos da Estrada Real, não se sabe exatamente quantos necessitam de manutenção, segundo Junqueira. Pessoas que fazem o trajeto do Caminho dos Diamantes, como o músico e praticante de cicloturismo Lucas Duarte, 29, relatam marcos tombados ou em péssimo estado de conservação.

Também a estrutura é pequena ou até inexistente em muitas cidades. Povoados como Itapanhoacanga, por exemplo, distrito de Alvorada de Minas, não oferece quase nenhuma. Duarte ainda se ressente de um centro de apoio aos turistas nos trajetos mais longos e desertos, como os 38 km entre Diamantina e Serro.

Hoje, os viajantes percorrem os caminhos de diversas maneiras: a pé, de bicicleta, a cavalo e em veículos 4×4. Principalmente durante a pandemia, o número de turistas aumentou consideravelmente. “Você se depara o tempo todo com gente percorrendo o caminho, nunca está sozinho”, afirma Duarte.

Em tempos de pandemia, o ciclista, no entanto, evita tantos contatos. “Nos dias de semana, os destinos estão mais vazios”, salienta. Para ele, a Estrada Real combina bem com o turismo de isolamento. “É tranquila, quase uma terapia, mas é preciso se preparar para percorrê-la sem gastar muito”, aconselha. 

 

Pedal 031

Sem exercer a profissão de músico por conta da pandemia do novo coronavírus, Duarte criou o projeto Pedal 031 e aproveitou o momento para se monetizar de alguma forma, divulgar a prática de esporte e promover os destinos mineiros.

Os planos de percorrer os caminhos da Estrada Real começaram em 27 de setembro do ano passado. Finalizado em 2 de dezembro, o percurso de Diamantina a Paraty durou cerca de 63 dias, com um pequeno desvio na rota na serra do Cipó por conta das queimadas. Desde 1º de junho deste ano, o ciclista faz o percurso do Caminho Novo, que só deve ser concluído em 3 de agosto. 

“O que movimenta o turismo nas cidades da Estrada Real são ações isoladas, o próprio empresariado local. Quem faz a travessia divulga o percurso e os destinos com o boca a boca e as postagens nas redes sociais”, enfatiza.

No caminho, o ciclista faz parcerias com hotéis e restaurantes para diminuir os custos. Pelos seus cálculos, não se gastam menos de R$ 5.000 para fazer todo o trajeto. Por conta da pandemia, Duarte já se deparou com municípios fechados aos turistas, como São Thomé das Letras. “Na época da minha viagem, a cidade não permitia a entrada de visitantes, antes mesmo de ter caso de Covid”, conta.  

Como a Oikos, a CVC Viagens já estuda a formatação de pacotes para a Estrada Real. Atualmente, a operadora apenas oferece serviços, como voos, hotelaria e locação de carros, que podem apoiar nos roteiros. Procurada pela reportagem, a Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult) informou “que está trabalhando um projeto para a Estrada Real que será lançado em breve”.

 

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