Indústria farmacêutica enxerga pandemia como oportunidade

O Brasil, 7ºmaior mercado farmacêutico do mundo, descobriu sua total dependência de matérias-primas importadas | Crédito: Fabrizio Zini @ RED Photo Imagem

Sempre importante por lidar diretamente com a vida das pessoas, a indústria farmacêutica nunca esteve tão no centro das atenções como em 2020. A indústria impactada pela escassez de insumos, a pressão da sociedade por soluções mágicas, logística em xeque, problemas com embalagens, imbróglios diplomáticos e investimentos nem sempre tão bem direcionados, caminhou na tênue linha entre uma grande oportunidade e o caos.

O sétimo maior mercado farmacêutico do mundo descobriu que é totalmente dependente de matérias-primas importadas e se assustou. Ao mesmo tempo vem descortinando um País de profissionais de ponta, capazes de gerar tecnologia e soluções globais.

No novo normal da indústria farmacêutica, tecnologia, cooperação com a academia, esforço industrial e políticas públicas deveriam – e ainda podem – ser os componentes de uma formulação que garantiria, lá na ponta, uma saúde melhor e mais acessível para todos.

A Covid elevou a demanda da indústria farmacêutica | Crédito: Felipe Christ

No caos sanitário e econômico trazido pelo Sars CoV-2, no início de 2020, a impressão que ficou é que quem fabrica ou vende medicamentos se deu bem. É certo que o resultado do setor como um todo foi positivo e a necessidade de encontrar soluções rápidas – vacinas e tratamentos – contra a Covid-19 lançou luz e atraiu investimentos para a indústria farmacêutica. Mas isso não aconteceu de forma homogênea e, menos ainda, sem sofrimentos.

O faturamento do mercado farmacêutico cresceu 13,6% de janeiro a outubro de 2020. Segundo dados da IQVIA, que audita o setor, nesse período, o volume movimentado foi de R$ 113,02 bilhões. As vendas de suplementos, vitaminas, relaxantes e antidepressivos tiveram destaque nos primeiros dez meses do ano – e estão diretamente relacionadas ao momento vivido pela população por causa da pandemia de Covid-19.

De acordo com o professor do curso de Farmácia da Faculdade Pitágoras / Ipatinga, Marcus Vinícius Dias Souza, para entender a complexidade da cadeia produtiva do setor farmacêutico brasileiro é preciso ter em mente a extrema dependência de insumos importados que vivemos. O Brasil não sintetiza moléculas e ativos e, portanto, praticamente não detém patentes e tecnologias de base da indústria. O professor ministra a disciplina de Tecnologia Farmacêutica, que prepara os alunos para trabalharem na indústria.

“Não sintetizamos ativos no Brasil. Nossa indústria funciona basicamente como uma grande farmácia de manipulação e também não fazemos muitos testes clínicos porque não trabalhamos na descoberta de novos insumos. Infelizmente, não acredito que vamos ter uma reindustrialização. A indústria estará mais acordada para as soluções logísticas”, explica Souza.

“Não sintetizamos ativos no Brasil. Nossa indústria funciona basicamente como uma grande farmácia de manipulação e também não fazemos muitos testes clínicos porque não trabalhamos na descoberta de novos insumos. Infelizmente, não acredito que vamos ter uma reindustrialização. A indústria estará mais acordada para as soluções logísticas”, explica Souza.

País é grande farmácia de manipulação , diz Souza | Crédito; Divulgação

A instalação dessas plantas de síntese de fármacos não é uma tarefa simples. Além de desenvolvimento e/ou transferência de tecnologia, o País precisaria avançar em infraestrutura, regulamentação e formação de profissionais.

“Há no Brasil uma desconexão da pesquisa acadêmica com as necessidades do mercado. Seria de suma importância a síntese dos medicamentos da hipertensão, diabetes, por exemplo, que são doenças com uma incidência muito alta. Deveria ser uma decisão governamental. A indústria tem seus próprios interesses econômicos, em algumas áreas não há interesse porque o desenvolvimento de um novo ativo é muito lento e quando finalmente o produto chega ao mercado, a demanda já é outra. Precisamos de um governo que tenha gosto pela ciência e faça esse incentivo”, destaca o professor.

Hub de inovação

Ao mesmo tempo que enfrenta dificuldades, a cadeia produtiva se organiza e fortalece. Em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), o BiotechTown – hub de inovação em biotecnologia e ciências da vida, construído por meio do investimento da Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep) e da Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge) -, o futuro parece se antecipar na forma de empresas disruptivas que atuam no mercado farmacêutico.

Para a farmacêutica e startup/technology hunter do BiotechTown, Juliana Saliba, o Brasil reúne uma série de características que podem levar a um desenvolvimento da indústria farmacêutica sem precedentes, mas isso exige uma tomada de decisão que inclui poder público e iniciativa privada.

“O Brasil tem um ecossistema de inovação muito forte, temos muitos recursos e profissionais qualificados. O interessante é que as próprias empresas nacionais estão despertando para a necessidade de desenvolver tecnologia aqui. Empresas brasileiras procuram o BiotechTown para buscar tecnologia. O que precisamos é que os atores revejam suas formas de conexão. Precisamos das universidades formando pesquisadores com mindset empreendedor. Já existe um movimento para isso. O pesquisador deve entender o quanto aquela pesquisa pode ser útil e como vai chegar ao mercado. Na outra ponta, as empresas entendendo que a inovação é um critério de inserção no mercado. O caminho é a aproximação com as novas tecnologias que estão sendo desenvolvidas dentro dos centros de pesquisa e nas startups. Saindo da inovação vertical, fechada, feita dentro da empresa, para o modelo horizontal, aberto, com as indústrias buscando formas de potencializar as soluções”, analisa Juliana Saliba.

Juliana Saliba: é preciso rever as formas de conexão | Crédito: Divulgação

Pouso Alegre se destaca como polo em MG

A força da indústria farmacêutica faz com que também os municípios se organizem. No Sul de Minas Gerais, Pouso Alegre se destaca como um polo farmacêutico. Desde a década de 1980, a cidade atrai esse tipo de investimento oferecendo um ambiente de negócios “amigável”, nas palavras do secretário Municipal de Desenvolvimento Econômico, Paulo César Figueiredo Pereira.

“O primeiro ciclo começou com a instalação da Cimed na cidade, o que foi de, certa forma, uma sorte. Outras empresas começaram a chegar e, a partir disso, instituímos uma política de relacionamento próximo, direto e transparente com elas. Isso é muito importante para a cidade porque essas indústrias geram postos de trabalho qualificados. Uma vantagem que elas têm aqui é a logística privilegiada, muito mais do que os incentivos econômicos”, afirma Pereira.

E é em Pouso Alegre que fica a fábrica de cápsulas da ACG. De acordo com o head de Vendas Brasil e América Latina da ACG, Raphael Sideris, a unidade, que conta com tecnologia indiana e inteligência de mercado brasileira, é destinada à fabricação de cápsulas para os segmentos farmacêutico, nutracêutico e alimentício. Em 2019, a unidade recebeu R$ 350 milhões em investimentos na construção e em maquinários de última geração. Atualmente, produz 12 bilhões de unidades por ano, em 10 linhas de produção.

“Como uma empresa global, poderíamos ter feito esse investimento em qualquer lugar do mundo, mas escolhemos o Brasil – Pouso Alegre porque acreditamos não só no potencial do mercado brasileiro, mas também na qualidade da mão de obra e na capacidade de atração de outros investimentos. Criamos aqui a fábrica de cápsulas mais moderna da América Latina e continuamos pensando em novos investimentos para o ciclo 2021/2022. Existem profissionais qualificados no Brasil. Temos tecnologia para fazer nossas vacinas. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) é uma das mais sérias e reconhecidas do mundo. Falta explorar a riqueza que temos no Brasil”, avalia Sideris.

Atualmente, a fábrica de cápsulas da ACG produz 12 bilhões de unidades por ano, em 10 linhas de produção | Crédito: Divulgação

Tecnologia

Na mesma linha de raciocínio segue a CEO da startup mineira Far.me, Samilla Dornellas. A empresa, sediada em Belo Horizonte, que faz a dispensação de medicamentos de forma personalizada, teve os negócios impulsionados durante a pandemia.

“A jornada do cliente mudou com ele dentro de casa e cada dia mais exigente. Devemos compreender os problemas da população, utilizar tecnologias emergentes para resolvê-los. Já foi a época quando bastava pensar apenas em colocar o fármaco no mercado. Mais do que nunca as indústrias acompanham os usuários. A tecnologia pode ajudar nesse processo. A Covid-19 exigiu investimentos no mundo todo e fez com que a população passasse a observar o setor farmacêutico com mais atenção. Isso pode ser uma coisa boa na medida que pressione os tomadores de decisão – públicos e privados – da necessidade de mais investimentos e colaboração”, destaca Samilla Dornellas.

Leia mais: Negócios| 01/04/2021 – Diário do Comércio

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