Investimento é o menor em 53 anos, e Brasil corre risco de tudo piorar

João José Oliveira Do UOL, em São Paulo 28/02/2021 04h00

Se o Brasil não começar rapidamente a aumentar o volume de investimentos, o país terá uma década perdida, com baixo ou nenhum crescimento econômico, fraca geração de empregos e desenvolvimento limitado. Investimento é todo o gasto que aumenta a produção de um país. O nível atual é o pior em 53 anos. Segundo economistas, o país precisa voltar a atrair dinheiro do setor privado, local e estrangeiro, já que o governo está muito endividado e sem espaço no Orçamento para gastar em novos projetos.

O desafio, apontam os economistas ouvidos pelo UOL, é convencer empresários e investidores brasileiros e estrangeiros que o país é seguro para investimentos. Será necessário que o governo federal e o Congresso toquem as reformas (como a tributária e a administrativa) e definam regras para setores como o de ferrovias e o de gás. Além disso, o crescimento da dívida precisa ser contido.

“O Brasil está numa encruzilhada. Se tivermos essas reformas, junto com os marcos regulatórios, além das emendas constitucionais que reforcem o compromisso com o controle de gastos públicos, isso tudo melhora em muito o ambiente de negócios no Brasil, que volta a ficar atraente para os investidores. Se essas propostas não andarem, então vamos ter um crescimento fraco, entrando em um ciclo negativo, como ocorreu entre 2013 e 2016”.
José
Márcio Camargo, professor da PUC-Rio e economista-chefe da Genial Investimentos.

Por que investimento gera crescimento?

Investimento é tudo que aumenta a capacidade de produção de um país. Uma loja que abre um novo corredor de gôndolas, uma indústria que compra uma máquina para produzir mais, uma fazenda que amplia a área de cultivo, uma nova estrada que permite a circulação de mais veículos.

Com investimento, os negócios crescem, abrem-se mais empregos, que por sua vez injetam renda na sociedade que, assim, consome mais.

Por que sem investimento o país trava? Se não há investimento, a nação fica estagnada de alguma forma. Mesmo que o consumo tenha algum crescimento, rapidamente começam a faltar produtos, e isso provoca inflação ou alta do dólar. Há inflação quando existe mais procura por uma mesma quantidade de itens. O dólar sobe quando a baixa oferta é compensada com importações.

O Investimento no Brasil é mesmo baixo? O investimento no Brasil em relação ao tamanho do PIB (Produto Interno Bruto) chegou ao menor patamar desde 1968, segundo estudo do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).

O país tem hoje uma taxa de investimento em relação ao PIB que fica atrás do mundo. Perdemos para a média mundial, para a média das economias emergentes e até para a média da América Latina e Caribe. Por isso, o país tem dificuldade em manter um ritmo de crescimento do PIB.


O que atrapalha a atração de investimento ao Brasil?
Para investir, empresários e investidores precisam fazer contas para saber se vão ganhar dinheiro. A incerteza é inimiga dos investimentos, dizem os economistas. O histórico do Brasil de inflação descontrolada, juros elevados e mudanças de políticas econômicas está na memória dos mercados. Em momentos de crise, essas incertezas acabam falando mais alto.

É o que está acontecendo desde 2020. Com a crise mundial provocada pela pandemia, a atividade econômica ficou mais engessada, drenando ainda mais o fluxo de capital para o Brasil.

Para piorar, algumas decisões tomadas pelo governo aumentaram as incertezas. Economistas dizem que a interferência do presidente Jair Bolsonaro em companhias importante como Petrobras, Banco do Brasil e Eletrobras passam a mensagem de que o governo pode, a qualquer momento, mudar as regras do jogo dos negócios.

“Além da pandemia, o momento ruim da economia brasileira faz com que as empresas não vejam um claro sinal de crescimento. E eventos como o da Petrobras só pioram as coisas. O controle de preços de energia e de petróleo, que sempre foi um problema e parecia resolvido, voltou agora. Por tudo isso, sou bem cético de que tenhamos uma onda de crescimento sustentável. Corremos o risco de ficar estagnados do ponto de vista de renda per capita”.
Emerson Marçal, professor e coordenador do Centro de Macroeconomia Aplicada da FGV EESP.

Por que o governo não pode investir mais?
Ao longo dos anos, o Brasil tentou incentivar investimentos com dinheiro público. Foi assim, por exemplo, nos anos 1970 e, mais recentemente no governo da presidente Dilma Rousseff. Mas em ambos os casos, o resultado foi um rápido aumento da dívida pública e, na mesma onda, inflação -dois males que abortaram o ciclo de expansão.

“Houve mais investimento, por exemplo, entre 2010 e 2014, porque o governo optou por produzir o superinvestimento para superar a crise de 2008. Mas não deu certo, pois houve o superendividamento. Foram construídos ativos que não deram retorno. Então, a crise do investimento é na verdade a crise do endividamento público. A dívida pública até estava entrando nos eixos, mas com a pandemia voltou a subir”.
André Rebelo, diretor executivo de Economia e Estratégia da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).

Por que a dívida do governo atrapalha investimentos? Quanto mais o governo deve, menos espaço há no Orçamento público para fazer investimentos. Quase 90% de tudo que o governo arrecada vai para despesas cotidianas -salários, aposentadorias, pensões e custeio da máquina pública. A dívida pública federal bateu em janeiro deste ano R$ 5 trilhões. E o percentual dessa dívida que vence num curto prazo (até 12 meses) aumentou: de 18,7%, em 2019, para 27,6%.

Essa dívida gigante obriga o governo a tomar dinheiro emprestado no mercado, por meio de títulos públicos, para rolar a pendência. E para cada real a mais aplicado em título público é um real a menos investido na economia real.

Por que reformas são importantes? Para romper esse círculo negativo, o governo precisa gastar menos e abrir espaço para as empresas e investidores privados colocarem dinheiro em circulação, dizem economistas. O aumento do endividamento público pode ser contido por diferentes caminhos, dizem os economistas. Um é a reforma administrativa. Outro é a aprovação de duas PECs (Propostas de Emendas à Constituição): a PEC emergencial, que introduz gatilhos automáticos de congelamento de salários de servidores, e a PEC do Pacto Federativo, que prevê redução do tamanho do Estado e descentralização de recursos.

A reforma tributária e a definição dos marcos regulatórios com as regras para investimentos em setores como o de óleo e ferrovias, abre espaço para novas concessões e projetos que movimentam bilhões de reais, dizem os analistas.

“O fluxo de recursos de investimento existe. Tem muita liquidez [dinheiro] no mundo, e os juros estão baixos. Mas quem sanciona o investimento é a viabilidade dos projetos”.
André Rebelo, diretor executivo de economia e estratégia da Fiesp.

“A rapidez da resposta dos investimentos vai depender de como o governo vai se comportar diante desse processo para reduzir o grau de incerteza. A resposta dos investimentos pode ser relativamente lenta, mas a liquidez no mundo tende a acelerar a resposta dos investidores globais”.
José Márcio Camargo, professor da PUC-Rio e economista-chefe da Genial Investimentos.

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