Janela de Overton e Fake News

A primeira vez que me deparei com o conceito de Janela de Overton foi em um livro de Gleen Beck, apresentador de TV, comentarista político e escritor americano, no qual se desenvolve uma trama cujo objetivo é destruir os Estados Unidos. O autor entrelaça acontecimentos reais com ficção, provocando o leitor a se questionar sobre os limites entre teoria conspiratória e realidade.

No decorrer do romance, o autor explora o conceito da Janela de Overton, criado por Joseph P. Overton, ex-vice-presidente de um think tank chamado Mackinac Center for Public Policy, que defende que o grau de liberdade das decisões políticas são limitadas pela opinião pública, dentro de uma janela (daí o termo) de aceitabilidade. Ou seja, mesmo que a liderança máxima de uma país acredite que uma política pública é a melhor solução técnica para um problema social, tal medida somente poderá ser adotada com sucesso se estiver dentro de uma faixa de aceitação da sociedade.

No tão presente caso da pandemia, em vários países, governantes acreditavam em estratégias de confinamento vertical, com a preservação dos grupos de risco, como modelo adequado para equilibrar as consequências imediatas de saúde pública com os efeitos devastadores da queda do desempenho econômico. Ainda que esta pudesse ser hipoteticamente a melhor alternativa, deixando claro que o propósito do artigo não é discutir o mérito de um ou de outro posicionamento, os políticos não tiveram liberdade para implantá-la.

Aborto, casamentos homossexuais, liberação de cassinos, redução da folha de pagamento dos servidores públicos durante a crise do COVID, reformas previdenciária e trabalhista são exemplos de temas que sofrem limitações de escolha por parte dos políticos. Deliberar fora da Janela de Overton causa desde desgaste de imagem até repúdio grave do governo, a exemplo do ocorrido recentemente no episódio da majoração dos preços de passagens de metrô no Chile.

Mas os governantes nunca estiveram completamente de mãos atadas, a sabedoria política já ensinou que não se deve nadar contra a maré. A fórmula então é deslocar a Janela de Overton.

Tal intento era obtido pela cuidadosa utilização da mídia, criando notícias, ampliando ou diminuindo a credibilidade de atores específicos, desviando-se do mérito central para embarcar o tema desejado em outro de melhor aceitação. Em síntese, antes de tomar uma medida impopular ou inviável, todo governo minimamente preparado busca manipular a opinião da sociedade, ou seja, a sua opinião.

Ocorre que com a proliferação da Internet e dos dispositivos móveis, surgiu uma nova e poderosa ferramenta: as Fake News. Nos sucessivos governos que tivemos recentemente, incluindo os períodos eleitorais, vimos a intensificação do uso desse artificio para deslocar a Janela de Overton.

A ausência de autoria permite que os criadores das noticiais falsas ultrapassem limites e criem situações com grande potencial de manipulação, principalmente quando adeptos mais radicais de uma proposta, partido ou político reproduzem desenfreadamente essas (des)informações. Consciente ou inconscientemente, caso você não esteja no extremo oposto da ideia, sua percepção começa a ser ligeiramente modificada. Você, de maneira gradativa, ao se expor e absorver memes e posts sem visão crítica, vai sendo manipulado em um movimento de massa.

O pior, você pode estar sendo movido para uma janela de aceitação de um ato ou política pública que não representa algo que você realmente acredita.

Redes sociais, influenciadores digitais e softwares de mensagem instantânea são uma composição explosiva para ampliação exponencial de Fake News, ainda mais em tempos de confinamento. O reverso é que também podem ser um ambiente adequado para mediação e bom senso, para convergência e união. Requer de cada um de nós vigilância e responsabilidade redobradas.

Aproveite esses momentos em casa, reflita mais intensamente sobre seus valores e posicionamentos. Antes de repassar qualquer informação, verifique a autoria, os dados, as fontes, a realidade dos fatos. Seja um influenciador do bem.

*Jeovani Salomão é empresário do setor de TICs e ex-presidente da Assespro-Nacional.

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