Jovem é o público investidor que mais cresce no Brasil

* Por Naiara Bertão

 

Aos 23 anos, a estudante de administração de empresas Júlia Abi-Sâmara está ajudando a encorpar as estatísticas de novos jovens investidores no mercado brasileiro, depois de ela mesma se tornar um deles. Após ministrar, em 2019, cursos para cerca de 130 amigas e amigas de amigas, no ano passado ela resolveu criar um canal no Instagram para disseminar seu conhecimento para ainda mais pessoas, em especial mulheres. O perfil “@as.investidoras” tem hoje mais de 29 mil seguidores.

O empurrão inicial para deixar de ser uma poupadora, uma vez que mantinha todo o dinheiro na caderneta, e passar a investir em títulos públicos, ações, fundos e criptomoedas veio de um observação machista de um colega da faculdade. Ao dizer que gostaria de entender mais sobre investimentos, foi surpreendida com o comentário de que “finanças não é coisa de mulher”. Estimulada por um sentimento de vingança e pela determinação de provar o contrário, ela passou a estudar o assunto.

Bolsa ganhou 374.822 novas contas de investidores com até 25 anos desde o início de 2019

Mais confiante, começou a dar aula para duas amigas, que acabaram trazendo outras colegas e, assim, tornou-se referência no tema para o grupo, que percebia a importância de gerir o próprio dinheiro, mas não sabia se tinha recurso suficiente, nem por onde começar e o que fazer.

“Conforme fui estudando, via o quanto aquele conhecimento estava impactando minha vida financeira. Passei a entender onde colocar meu dinheiro para render mais, como estipular metas e como cuidar melhor das minhas finanças. Mas, o mais importante é que melhorei minha autoestima e autoconfiança por estar aprendendo sobre um assunto que eu mesma achava que não seria capaz de aprender”, conta Júlia, em entrevista ao Valor Investe.

Para sair da poupança, começou investindo no título público mais conservador, atrelado à taxa Selic, no Tesouro Direto. À medida que foi ganhando conhecimento e confiança, passou a arriscar mais. “Vi que estava tudo certo e comecei a explorar outras opções. Hoje minha carteira é diversificada. Já fui conservadora, moderada e hoje tenho um pezinho mais no perfil de investidora arrojada”, diz.

Júlia é uma das 88.257 novas mulheres, entre 16 e 25 anos, que abriram conta na B3 desde o início de 2019. Considerando tanto o público feminino quanto o masculino com idade de até 25 anos, a bolsa brasileira ganhou 374.822 novas contas de investidores nos últimos 27 meses. Quando somado a faixa etária de 26 a 35 anos, o número de novos CPFs sobe para 1.337.366.

O crescimento foi exponencial. Ao comparar o total de contas de pessoas físicas em dezembro de 2018 e em março de 2021, a faixa etária que teve o maior crescimento percentual foi justamente a de jovens de 16 a 25 anos: nesse grupo, o número de contas registradas saltou 870%, passando de pouco mais de 41 mil para 403 mil. Do início de 2020 para cá, a abertura de contas de crianças e adolescentes (até 15 anos) aumentou 147%, a de jovens de 16 a 25 subiu 126% e a dos jovens adultos (26 a 35 anos), 120%.

No Tesouro Direto, contas de jovens com até 25 anos cresceram 315% de dezembro de 2018 a fevereiro último

No Tesouro Direto, o mesmo movimento foi observado. As pessoas com até 25 anos somavam 16,4% do total das contas cadastradas em dezembro de 2018, o equivalente a cerca de 510,6 mil contas. Em fevereiro de 2021, já eram 21,4% do total ou 2,12 milhões de cadastros – crescimento de 315% no período. Ao considerar também a faixa de 26 a 35 anos, os jovens dominam hoje 57,7% do número total de contas abertas ou 5,71 milhões (salto de 242%).

Apesar de só uma parcela dessas contas, tanto na B3 quanto no Tesouro, ser de investidores ativos, é inegável que os jovens estão mais interessados em conhecer o mundo dos investimentos e se arriscando mais. Vários fatores explicam esse movimento, entre eles o juro muito baixo, hoje em 2,75% ao ano.“O juro real [descontada a inflação] está negativo em quase 3%. O jovem ouve falar bastante que nesse cenário ele está perdendo poder de compra ao deixar o dinheiro parado na poupança”, afirma Celson Placido, diretor de investimento da plataforma de investimentos Warren.

 

Com mais de uma década de experiência no mercado de investimento, Placido ressalta ainda uma mudança significativa no acesso à informação sobre finanças, especialmente nas redes sociais, como uma segunda explicação para o aumento do interesse dos jovens pelo tema. “Eu mesmo acabo passando informação e respondendo perguntas nas minhas redes, o que não fazia há alguns anos. Quando meus filhos gêmeos nasceram há dez anos, meus sogros queriam dar para ele de presente uma caderneta de poupança”, lembra.

De fato, o acesso tanto a conteúdo quanto a aplicações financeiras ficou mais fácil com o advento de tecnologias. Uma pesquisa divulgada pela B3 em dezembro de 2020 mostra que a principal fonte de informação dos investidores é a internet (73% das respostas), seguida por Youtube e influenciadores (60%) e e-mails, alertas e notificações de empresas do setor (38%). Em quarto e quinto lugares aparecem as redes sociais de bancos e corretoras, com 38% das respostas, e as de perfis diversos (36%).

Foi justamente por acompanhar o perfil no Instagram da estrategista-chefe da corretora Rico, Betina Roxo, que Marcelo Rapport decidiu montar uma carteira de investimento mais arrojada. O estudante de 20 anos já havia juntado o equivalente a 12 meses de gasto mensal com o dinheiro que ganhava de presente da família e, ao conseguir um estágio, há poucos meses, entendeu que era hora de buscar opções de investimento mais rentáveis, de olho na sua independência financeira. Isso só foi possível, conta, porque seus pais se comprometeram a arcar com suas despesas fixas. “Eu me considero mais agressivo. Com 20 anos não tenho que ficar com muito medo de ter variações no meu patrimônio, já que tenho tempo para investir pensando lá na frente”, diz.

Segundo Betina, da Rico, a linguagem que a corretora usa e que também é adotada por ela outros influenciadores nos perfis das redes sociais é um dos principais atrativos para este público. “O mundo digital tem um benefício que é democratizar a informação. Os jovens que antes dependiam de livros hoje podem aprender sobre investimentos em diversos canais,” diz.

Aos 29 anos, Betina foge do estereótipo de executiva do mercado financeiro que marcou a geração mais velha. Com roupas descoladas, vídeos engraçados, analogias com o cotidiano das pessoas e temas que repercutem nas redes sociais, ela e sua equipe conseguem destrinchar assuntos árduos em linguagem clara e compreensível. Mesmo quando os posts no Instagram ou os artigos diários da corretora têm gráficos, eles são mais coloridos e “desconstruídos”, para facilitar o entendimento.

“Antes o tema parecia distante dos jovens, que não se identificavam com pessoas vestidas de terno e gravata e que falavam uma linguagem difícil”, conta Betina. Hoje, ela recebe um número crescente de mensagens de jovens interessados tanto em saber mais sobre sua carreira, onde fez faculdade, como em falar sobre investimentos de um jeito mais natural. “As pessoas se conectam mais.”

Na Rico, o número de contas de pessoas com 16 a 29 anos passou de 28% do total em março de 2020 para 40% no mês passado, segundo levantamento feito a pedido do Valor Investe. Considerando apenas novas contas, houve um aumento de 40% na abertura de cadastro na Rico nessa faixa etária no período.

Outra corretora do grupo XP Inc. que está se beneficiando da busca de jovens por investimentos mais rentáveis é a Clear, muito conhecida entre aqueles que gostam de negociar ações, minicontratos e outros ativos de renda variável. Do total de novas contas abertas de março de 2020 a março de 2021, 50% eram de jovens de 16 a 29 anos. Ao analisar o período anterior, de março de 2019 a março de 2020, os jovens respondiam por 43% do total e, entre 2018 e 2019, por apenas 36%.

“A demanda desse público por produtos especialmente de renda variável é crescente e vai continuar. Isso se deve a uma série de fatores, entre eles, tecnologias cada vez mais avançadas. As plataformas digitais hoje são bastante acessíveis e têm linguagem e navegação mais amigável. Outro fator é o custo bem mais baixo, com corretagem zero para quase tudo”, afirma Roberto Indech, sócio da XP Inc. e estrategista-chefe da Clear.

De fato, a forte concorrência entre empresas que oferecem produtos de investimentos tem baixado muito os custos e também a aplicação mínima inicial. Hoje com R$ 1 mil já dá para compor uma carteira diversificada e há muitas opções de produtos a partir de R$ 100.

Um efeito disso é a diminuição do tíquete médio por cliente nas corretoras, em especial as que têm uma clara proposta digital, ambiente onde os jovens navegam bem. Segundo a pesquisa “A descoberta da bolsa pelo investidor brasileiro”, de dezembro último, nos últimos dois anos, o valor do primeiro investimento das pessoas físicas, em geral caiu 58%, saindo de R$ 1.916, em outubro de 2018, para R$ 660, em outubro de 2020.

Os investidores mais jovens estão entrando na bolsa com valores menores ainda: em outubro de 2020, o valor médio era de R$ 225 na faixa de 16 a 25 anos de idade. “Os brasileiros estão entendendo que, para diversificar seus investimentos e chegar à bolsa, não precisam de grande volume de dinheiro”, aponta o estudo.

Dados recentes da B3 mostram que, no mês passado, o volume financeiro aplicado por investidores de até 25 anos representava apenas 1,09% do total. No fim de 2018 estava em 1,31% e, em 2019, 1,38%. Em reais, contudo, o volume quase dobrou no período, de R$ 2,62 bilhões em 2018 para R$ 5,26 bilhões no mês passado. Como os investidores mais velhos têm mais recursos, os novinhos perderam representatividade no bolo total.

O administrador de empresas Caio Nakadomari começou a aplicar parte de seu dinheiro em títulos do Tesouro e CDBs em 2017. Depois que participou de um curso sobre renda variável com o Professor Mira, do canal Me Poupe!, em 2019, ganhou confiança para se arriscar mais. Hoje, gosta, por exemplo, de investir em ações.

“Meu objetivo era conseguir um retorno melhor para alcançar meus objetivos financeiros. Fiz algumas escolhas erradas, principalmente em março de 2020, durante os circuit breakers da bolsa, porque ainda estava aprendendo algumas coisas e deixei me levar pela ganância. Eu aprendi a investir através de um curso e hoje, para escolher um investimento, mesclo análise dos fundamentos da empresa com análise gráfica para refinar o momento de entrada”, diz.

Assim como Nakadomari, o forte aumento do número de CPFs de jovens cadastrados na B3 não é um mero acaso. Esse público está sendo atraído cada vez mais por produtos de renda variável. “Quando pensamos no ciclo financeiro, faz muito sentido para os jovens assumirem mais risco. Eles podem, e devem, pensar no longo prazo. Já vejo muitos deles com essa consciência, reflexo da educação financeira aprendida em casa, na escola e por conta própria, em cursos e na internet”, afirma Betina, da Rico.

Na corretora, os clientes de 16 a 29 anos investem, em média, 37,6% de seu portfólio em renda variável, 26,9% em renda fixa e o restante em outros produtos, como fundos, previdência, fundos imobiliários e saldo em conta. Recentemente, a Rico lançou até um produto no mercado de esportes eletrônicos com forte aceitação entre os mais novos, um fundo que investe em ETF de empresas internacionais do segmento a partir de R$ 100.

A preferência por ativos mais arriscados também está cada vez mais clara para a Easynvest. Ainda que a maioria (42,15%) dos jovens de 18 a 24 anos se identifique com o perfil “moderado”, os “experientes” chegam a ultrapassar os “conservadores”: 24,5% versus 23,70%. A maior parte deles (65%) são homens e o restante (35%), mulheres.

Os cinco produtos mais procurados para aplicação por este público em março foram, na sequência: ações (22%), Certificados de Depósito Bancário (21%), fundos imobiliários (15%), títulos públicos atrelados à inflação (8,8%) e BDRs (5,7%). Em 2019, a lista era formada por CDBs, títulos pós-fixados, ações, FIIs e fundos de ações.

Leia mais: Valor Econômico|Finanças| 22/04/2021

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