MULHERES DE MINAS

COMENDA DAS MULHERES INCONFIDENTES

Comenda das Mulheres da Inconfidência Mineira para homenagear as três mulheres importantes desse momento histórico.

 

Por: Alessandra Alkmim – Presidente do Conselho Empresarial da Mulher Empreendedora

Muitos de nós aqui presentes podem nunca ter ouvido sequer os nomes de Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira, Dona Hipólita Jacinta Teixeira de Melo e Maria Doroteia Joaquina de Seixas. Quem foram essas mulheres? E o que elas representam dentro da história de Minas Gerais e do Brasil? Se a maioria não soube responder sobre a importante participação dessas três mulheres na história do Brasil, isso demonstra que a participação feminina no movimento da Inconfidência Mineira foi esquecida pelo tempo.

É sabido que a Inconfidência Mineira, abortada antes de sua deflagração, foi um dos mais importantes movimentos sociais da História do Brasil que significou a luta do povo brasileiro pela liberdade e contra a opressão do governo português no período colonial. O movimento foi idealizado em 1789 pelos “poderosos” da capitania, como advogados, poetas, juízes, militares, religiosos, proprietários de fazendas e outros.

Os inconfidentes chegaram a definir até mesmo uma nova bandeira para o Brasil. Ela seria composta por um triângulo vermelho num fundo branco, com a inscrição em latim: Libertas Quae Sera Tamen (Liberdade ainda que Tardia).

A Inconfidência Mineira transformou-se em símbolo máximo de resistência para os mineiros, a exemplo da Guerra dos Farrapos para os gaúchos, e da Revolução Constitucionalista de 1932 para os paulistas. A bandeira idealizada pelos inconfidentes foi adotada pelo estado de Minas Gerais.

Cabe perguntar: qual teria sido a participação das mulheres naquele movimento? Teriam participado da articulação política ou apenas estariam unidas por laços afetivos familiares? A verdade é que, quando se trata das mulheres que viveram no mesmo período, porém, a história se apresenta cheia de lacunas. Na história oficial, elas são relegadas ao papel de coadjuvantes sem vez e voz. Está na hora de resgatarmos o protagonismo dessas mulheres.

Liberdade, ainda que tardia; ou resgate, ainda que tardio?

A riqueza do nosso estado vai muito além da rica cultura, das montanhas e belos horizontes, da poesia de Drummond, da prosa de Guimarães Rosa, das cidades históricas e, é claro, da boa gastronomia. Minas Gerais reúne grandes personalidades que escreveram as páginas da história durante o período em que viveram. Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira, Dona Hipólita Jacinta Teixeira de Melo e Maria Doroteia Joaquina de Seixas são o símbolo da história de uma luta que marcou para sempre a participação dessas mulheres na luta pela Inconfidência Mineira. Precisamos celebrar essa conquista.

Se ontem essas três mulheres estiveram presentes nesse importante período histórico, já perdemos a conta de tantas outras mineiras que não fugiram à luta e que foram para as batalhas munidas de coragem, fé e dignidade.

E quem foram essas três mulheres?

Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira, nasceu em São João Del Rei, Minas Gerais, em 1759. Ela foi a primeira poeta brasileira, uma mulher de espirito culto e revolucionária. Aos 20 anos conheceu e se apaixonou pelo poeta Alvarenga Peixoto, que era recém nomeado Ouvidor da Comarca dos Rio das Mortes. Casaram e tiveram quatro filhos. A história revela que o casamento dos dois foi marcado pelo companheirismo e romantismo. Bárbara Heliodora foi a estrela do norte que soube guiar a vida do marido; foi ela que acalentou o seu sonho da inconfidência do Brasil, quando ele, em certo instante, quis fraquejar. Mas foi Bárbara quem o fez reaprumar-se na aventura patriótica. Com a prisão de Alvarenga Peixoto, após a traição do movimento por Joaquim Silvério dos Reis, Barbara Heliodora não mais escreveu, teve a metade dos seus bens confiscados e passou a ser discriminada por toda a sociedade da época. Viúva, passou a se dedicar à educação dos quatro filhos e à administração dos bens restantes depois do confisco. Todo o seu sofrimento fez com que a posteridade lhe desse tratamento de “Heroína da Inconfidência Mineira’’.

Dona Hipólita Jacinta Teixeira de Melo, nasceu no arraial de Prados, em Minas Gerais, em 1748. Casada com o coronel Francisco Antônio de Oliveira Lopes, nunca teve filhos legítimos, mas o casal acabou criando duas crianças. Dona Hipólita participou ativamente da Inconfidência Mineira e ainda mostrou firmeza de caráter, quando impediu que seu marido — vacilante no momento decisivo da conspiração — delatasse seus companheiros. No processo, em seu depoimento, Francisco Antônio confirmou que não entregou a denúncia pessoalmente ao governador porque sua mulher ateou fogo àqueles papeis. Em 12 de junho de 1789, seu marido foi preso e apenado, de imediato, com o sequestro de seus bens. Dona Hipólita foi acusada pelo governador de participar efetivamente da rebelião e foi punida com a perda de todos os seus bens, recuperados posteriormente. Dona Hipólita, em atitudes de coragem, perseverança e altivez, após a prisão de seu marido, assumiu a direção dos negócios, defendendo seus interesses, tornando-se mulher empreendedora, no sentido de lutar para preservar seu patrimônio. Em uma carta escrita ao seu marido, já preso, Dona Hipólita pediu a ele para agir com cautela, sem esquecer que fazia parte de um grupo de revoltosos que lutava por ideais de melhora das condições de vida e trabalho em Minas Gerais. E completou: “E quem não é capaz para as coisas, não se meta nelas; mais vale morrer com honra do que viver com desonra”.

Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, mais conhecida como Marília de Dirceu, nasceu em Vila Rica, Minas Gerais, em 1767. Noiva de Dirceu, poeta, ouvidor e inconfidente conhecido como Tomás Antônio Gonzaga, ouvidor da antiga Vila Rica e um dos líderes da Inconfidência Mineira. Em 1789, ano em que fazia planos para se casar com Maria Dorotéia, Gonzaga foi preso junto com os demais inconfidentes e acabou condenado ao degredo em Moçambique, em 1792. Para o público leigo, Marília possui uma única face, a de musa do poeta Gonzaga, mas o mito de donzela, mártir, musa ou apenas uma mulher comum, permanece vivo na sociedade brasileira desde o século XVIII, adaptado e modificado a cada momento, mas figurando como um estereótipo que ajuda a compreender um modelo para o papel da mulher na sociedade naquele período. A imagem de Marília encontrada em livros, jornais e mesmo em ilustrações criadas para Marília e Dirceu é a do casal apaixonado e que depois de separado viveu de lembranças de um amor frustrado, uma perda ocorrida por circunstâncias maiores – a Inconfidência Mineira, inerente ao desejo cantado em versos de permanecerem juntos. Um desejo sinalizado pela tópica do amor impossível, trágico como em diversos outros casais da história e da literatura universal. Depois de sua morte e após Marília entrar para a galeria de Brasileiras Célebres do livro de Joaquim Norberto de Souza e Silva em 1862, vemos passar esporádica e estrategicamente ao fundo da história brasileira, a figura singela de Marília. Heroína nacional da qual se apropriaram republicanos e nacionalistas na constituição da galeria de heróis brasileiros. Apropriaram-se da figura de Marília também ministros e presidentes com objetivo da fundação de seus monumentos, sempre servindo aos mais diversos propósitos ao longo de nossa história.

Essas e tantas outras são as verdadeiras mulheres que lutaram para mudar os rumos de acontecimentos que marcaram a história de Minas Gerais. A história de mulheres que lutaram por ideais libertários em movimentos de contestação à ordem no Brasil. Como não reverenciá-las¿ Como não dar a elas o nobre título de heroínas mineiras?

Percebe-se agora que a Inconfidência Mineira não foi um movimento somente dos homens. Ela foi também dessas grandes mulheres: Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira, Dona Hipólita Jacinta Teixeira de Melo e Maria Doroteia Joaquina de Seixas. Elas estavam lá, participando, articulando, apoiando e lutando bravamente, mas que infelizmente foram ignoradas pela história.

A história dessas heroínas permite-nos entrever – pelas frestas de portas e janelas – mulheres arquitetando resistências, na busca da transformação ou mesmo fazendo uso dos modelos tradicionais para garantir seus interesses, e, sobretudo, sendo sujeitos de sua própria história.

A Inconfidência Mineira e tantos outros movimentos, não podem mais ser vistos como lutas separadas por um único gênero. O olhar feminino de hoje traz um novo enfoque à história do Brasil, ao revelar a forma como essas grandes mulheres se relacionaram com os grandes heróis da nossa história.

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